PONTO DE VISTA DO BATISTA

Falta luz ao governo

Quando se pensa ter o brasileiro esgotado sua capacidade de tolerância aos sofrimentos impostos e à ineficiência governamental, eis que mais um golpe vem testar sua resistência contra toda a sorte de pesadelos que o impede de sonhar a construção de um país de à altura do potencial latente. As trevas, que no mundo político se fizeram sob o aspecto moral com a supressão da ética e predominância dos interesses particulares, baixaram ao mundo físico do cidadão brasileiro sob a forma da escuridão de fato e da falta de energia para tocar o trabalho. Felizmente não falta a energia humana. E essa é que tem surpreendido, pois de tudo todos estão fazendo para superar a brutal crise que ameaça empacar toda a economia. É bem verdade que a natureza contribuiu, ou respondeu às provocações e agressões, mas, sobretudo, primeiro faltou "luz" ao governo. E aqui é bom lembrar a sabedoria popular que diz mais ou menos assim: quando a cabeça não vai bem, é o corpo que padece. No caso deste país, o corpo padece, mas cada célula sua está atenta aos gastos de energia elétrica, não hesitando em renunciar a comodidades, há pouco adquiridas, para que no total do que for poupado, energia não falte ao essencial em termos coletivos. Mesmo indignado com mais essa trapalhada, o brasileiro não perde o bom humor, desdobra-se para se adaptar à nova situação e ainda se vale da inventividade para criar mecanismos capazes de ajudá-lo na economia. Pena é que nem sempre esse esforço tem correspondência no outro lado do balcão. Vejam o caso da iluminação pública. Há muito tempo um grande número de luminárias permanece aceso durante 24 horas por dia. Mesmo depois de dado alarme e anunciado o "apagão" com multa e tudo, o desperdício público continua.

O desperdício de energia lembra outro, em tempo, verbo e verba, no Senado federal, por conta de enfrentamentos pessoais e processos contra membros daquela instituição. A sociedade confia aos seus representantes a responsabilidade de ordenar a administração do país por meio de leis, mas estas, se não dormem nas gavetas por conveniências estranhas às necessidades do país, nem sempre atendem aos reclamos do povo. O debate altivo em torno de idéias foi trocado pela discussão estéril e chula que, se acontecida em botequim da esquina, teria a presença da polícia. Aonde vamos com isso?

Da Casa de Leis passamos à de Segurança, de onde se espera venha a própria em amparo à população que vive na legalidade e labora na construção do país. Mas, também ali está se tornando rotina a quebra da disciplina que a Polícia Militar deveria manter em seus quartéis, para que seja moralmente forte na manutenção da ordem pública. Os reclamos dos policiais militares são justos, mas, lamentavelmente, os meios de que valeram os "grevistas" da Polícia Militar do Estado de Tocantins não servem como exemplo de conduta reivindicatória. A greve por si só, mesmo por motivos justos e consagrada pelo Direito, é uma anomalia nas relações de trabalho. É movimento que todos sabem como começa ninguém sabe como terminará. E se a mão está armada, a greve ganha contornos de rebelião cujo desfecho pode ser trágico a exemplo do que já aconteceu em Minas.

Mas, de todo o episódio, o mais lamentável foi o fato de crianças terem sido levadas para o palco dos acontecimentos, tática que vem sendo usada também em outros movimentos com claros propósitos de usa-las como escudo subjetivo. E o curioso é que em tempo de tantas ações em defesa dos direitos humanos, direitos da criança e do adolescente, ninguém tenha se manifestado contra esse abuso contra a infância, muito embora possam alegar que as crianças estavam juntas dos pais.

nbatista@uai.com.br

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