PONTO DE VISTA DO BATISTA

Por qué no te callas?

Aos mui palradores diz-se que em boca fechada não entra mosquito; sábio conselho, tendo-se em conta a desagradável sensação de ter corpo estranho na boca, às vezes em momento inoportuno, mas de valor muito superior para se evitar ouvir o não desejado em resposta à indisciplina no falar. Na mesma linha de raciocínio e de cuidados no uso da língua é antiga a advertência segundo a qual “enquanto um burro fala, os demais baixam as orelhas”. É’ questão, não só de polidez, mas, sobretudo de consideração para com aquele (a) que está com a palavra, pois quem fala quer ser ouvido e se há quem não queira ouvir, presente não deveria estar. Se discordância há da parte de quem ouve, que este aguarde a vez de manifestar sua própria opinião, e não queira a outrem fazer atropelos que, por certo, não quer sofrer.

Correu mundo, o quase fuzuê causado pela intromissão verbal, deseducada, de nosso destacado vizinho ao norte – mais destacado só se carregasse melancia pendurada ao pescoço – durante reunião de Cúpula Ibero-Americana, realizada no Chile. Destoante dos demais participantes, todos ouvidos à explanação do primeiro ministro espanhol, entendeu o fanfarrão venezuelano de quebrar a sintonia do momento, tentando sobrepor sua vontade tal qual faz em sua casa, como candidato a ditador em pleno exercício/experiência do poder, que almeja para si ad aeternum/para sempre. Sua insistência em interromper o orador, tal qual garoto indisciplinado carente de boas chineladas na bunda, acabou por ser contida pelo vigoroso “por qué no te callas?”; vigoroso por ser dito com assombro e indignação e mais vigoroso por sair da boca do rei de Espanha, homem circunspeto, extremamente contido nas palavras, educado para ser o que é. Polido como deve ser um chefe de estado, embora, nem por isso tenha sangue de barata, como ficou demonstrado!

O “por qué no te callas?” ainda ecoa pelo mundo, repetido por quantos tiveram ou têm vontade de se contrapor à arrogância do caudilho venezuelano, pseudo-salvador da pátria dentre os que, de tempos em tempos, aqui e acolá, pintam e bordam enquanto o circo tem platéia. Muito barulho fazem quando em evidência e nada deixam quando seu tempo passa e são recolhidos à sua insignificância. Ao mesmo tempo, aquele “por qué no te callas”? de destinatário único se multiplicou, segundo expectativas por mais coerência nas palavras que, poucas não são as recheadas de mentiras, e, por isso, requerem vigoroso “CALA A BOCA”, versão plebéia da ordem real. E o fanfarrão, projeto em andamento de ditador, encontrou no presidente tupiniquim a defesa que lhe faltava, talvez porque este veja naquele exemplo a ser seguido, embora jure não querer mandato ao fim deste. É a conhecida história do sapo que implora para ser jogado contra a pedra, quando sabe que pretendem jogá-lo na água, onde realmente quer cair!

Ao fazer a defesa do colega venezuelano, o presidente brasileiro acabou por denunciar seu falso conceito de democracia, dizendo que a Venezuela vive em pleno regime democrático, pois durante o governo do falastrão realizaram-se várias eleições. Se democracia é apenas isso, o período militar no Brasil também foi democrático, pois, com exceção do cargo de presidente da República, realizaram-se eleições regularmente para os demais, incluindo-se o de governador para dois mandatos. O que seu “companheiro” faz e tenta fazer na Venezuela não é muito diferente do que tivemos aqui, com a diferença que lá a ditadura em “banho-maria” tende à coloração vermelha e aqui foi para evitar essa cor; portanto, defendê-lo e apoiar o que faz é voltar atrás e repudiar tudo o que disse e fez contra o regime militar. É a velha incoerência aparente a serviço da coerência nas intenções ocultas!

Nesse apoio, vê-se que o plano do governante venezuelano de formar a Federação Socialista Latino-Americana (possível réplica da antiga URSS) já ultrapassa a simples organização dos Círculos Bolivarianos, cuja versão tupiniquim deverá ser lançada na I Assembléia Bolivariana Nacional, a se realizar dias 8 e 9 de dezembro próximo, no Rio de Janeiro; e que o presidente brasileiro está afinado com os propósitos urdidos em Caracas! Não venha, posteriormente, dizer que não sabia de nada, pois tudo está muito claro nos documentos a serem discutidos, no Rio, em dezembro próximo. Como sói acontecer em movimentos políticos antidemocráticos, diante do povo, na captação de recursos e transações bancárias o Movimento Bolivariano usará a denominação de Associação Nacional pela Educação Popular e a Cidadania, como máscara. É possível que o apoio tenha sido erro estratégico, mostrando o que não devia ser mostrado no momento. Se verdade, o presidente, a exemplo de seu “companheiro”, deve ter ouvido vários “por qué no te callas?”, que em tupiniquim é CALA A BOCA SÔ!

nbatista@uai.com.br

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