PONTO DE VISTA DO BATISTA

Portugal e preconceito contra Brasil

Em prosseguimento ao tema da semana passada continuo com as bandas de música na internet, e, navegando, chego a Portugal, onde elas se denominam bandas filarmônicas, tão numerosas, no continente e nas ilhas que formam o território português, e presentes nos momentos mais importantes de suas respectivas comunidades, sobretudo os religiosos da fé católica. Assim como no Brasil – pelo menos onde espíritos de porco não as expulsaram - em Portugal, santo não se celebra sem a presença da banda filarmônica. A maioria das que pesquisei tem calendário de apresentações fechado desde o início do ano. Em janeiro já sabem quais os compromissos têm até dezembro. Também lá, adolescentes e adultos acima de sessenta se integram, mas não consegui saber desde quando as mulheres participam. E aqui revelo idiossincrasia minha com relação a certa característica da internet, ou seja, a possibilidade de grupos se "reunirem" para troca de informações ou simplesmente conversar "borracha". Assim como há quem diga não gostar de jiló sem nunca dele ter provado, também eu não entrava em sala de "bate-papo", pois a considero "CHATice". Não me parece aproveitável uma conversa, sem se saber com quem, e nem lhe sentir a emoção. Pelo telefone, pode-se pelo menos medi-la no outro lado, na voz do interlocutor; na fria tela do monitor, a dissimulação tem mais vez.

Mas quando se gosta de algo, valoriza e se orgulha do que faz, qualquer sacrifício é válido; até entrar num "chat" da internet! Foi assim que entrei numa sala de bate-papo de músicos de filarmônicas portuguesas. Ressabiado, por ser a primeira vez, com a agravante de estar entre espécimes do dito primeiro mundo, embora tenhamos em comum a lusofonia (comunidade de fala portuguesa), entrei e fiquei quietinho no meu canto a observar o que os demais conversavam. Pelo diálogo cruzado percebia-se serem jovens instrumentistas. Segundo os nomes, havia rapazes e moças (raparigas, como dizem eles), mas isso não é muito confiável na internet, pois um João pode ser Maria, Manuel pode ser Manuela e vice-versa. Não há como conferir! E há quem se apaixone diante do computador! Bom tempo fiquei sem que importância fosse dada à minha presença. Já pensava em me retirar, de fininho, quando alguém me perguntou qual instrumento tocava e em qual filarmônica. Ao dar o nome da banda de música, a reação veio rápida: - e onde fica isso? - O nome deve ter soado bem estranho entre os que, para nós brasileiros, são também bastante engraçados. À segunda pergunta, respondi "Brasil" e aguardei boas-vindas, reação que, creio, seria da maioria de músicos de banda ante a entrada de um companheiro português em sala de bate-papo brasileira que, diga-se de passagem, parece-me ainda não haver para o setor. Entretanto, a reação foi um AH! cujo sentido entendi logo. Devolvi, manifestando que havia percebido a decepção naquela interjeição: - terceiro mundo, não? – De lá veio a confirmação: - muita pobreza nas ruas! - E ali secou o papo! Novamente fiquei isolado no meu canto, até que consultei o "desconfiômetro" e decidi pela retirada.

Bem feito para mim! Que tinha um reles tupiniquim que se meter entre orgulhosos membros da comunidade européia, consumidores em euros, herdeiros diretos de velhas civilizações!? Estava também explicado porque nunca recebi respostas a mensagens, enviadas anteriormente enquanto navegava por "sites" de filarmônicas lusitanas. Preconceito, puro preconceito! É por este ângulo que nos olham. E ainda nos babamos todos diante de qualquer estrangeiro. Basta que enrole a língua para que nos desfaçamos em salamaleques. Os portugueses, então, são tratados de modo especial. Mas, antes de ser rejeitado na internet, outros brasileiros viveram situações mais humilhantes em Portugal, sendo devolvidos ao Brasil do próprio aeroporto em que desembarcaram. Não eram bandidos, nem ilegais. Só eram brasileiros!

nbatista@uai.com.br 

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