PONTO DE VISTA DO BATISTA

Língua Portuguesa I

Finalmente, chega ao fim, depois de dezesseis anos, a polêmica levantada pela proposta de unificação ortográfica da Língua Portuguesa. Elaborado em 1992, o acordo previa sua aceitação pela comunidade lusófona (países que falam o Português) se ratificado por três dos países integrantes, além de Portugal. O terceiro a aceitar foi São Tomé e Príncipe, em dezembro do ano passado, depois do Brasil e Cabo Verde, faltando, entretanto a aprovação do parlamento português, o que acabou por acontecer no dia 16 último.

De acordo com o protocolo, com exceção de poucas que permanecerão diferenciadas no país de origem, a Língua Portuguesa terá as palavras grafadas da mesma maneira em todos os países da comunidade: Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste. Se do Brasil pouco se ouviu a respeito das mudanças, mesmo porque aqui serão mínimas, em Portugal, a unificação, que acabou por favorecer o Brasil, não foi bem aceita. Contrariados por entenderem que o acordo atende interesses brasileiros, mais de trinta e cinco mil portugueses, intelectuais em sua maioria, enviaram petição aos deputados com recomendação pela não aprovação das mudanças. Ironicamente e como sói entre políticos, dois deputados que encabeçavam a petição não estavam em plenário na hora da votação. Abandonaram seus seguidores, deixando o plenário da mesma forma que outros parlamentares que preferiram ficar em cima do muro, não votando.

Escritores portugueses, em tom de rebeldia, dizem que continuarão a escrever da mesma forma, jogando assim a responsabilidade sobre os revisores. Até que os lusitanos têm razão porque são eles os pais da língua, mas é no Brasil que o Português é mais falado: cerca de quatro vezes mais que todo o restante da comunidade lusófona. Assim, democraticamente, cabe à minoria se adaptar à maioria, razão pela qual Portugal e demais países de fala portuguesa terão 1,42% das palavras alteradas na grafia contra apenas 0,43% no Brasil. É muito para o orgulho europeu, nascido de culturas milenares, ceder em favor de descendentes tupiniquins com apenas algumas centenas de anos de história!

Em Portugal e demais países, a maior alteração está nas letras "c" e "p" não pronunciadas em palavras como director, direcção, acção, protecção, baptismo, adoptar e excepção. Deverão cair, passando as palavras a ser escritas como no Brasil. Só permanecerão nos casos em que, mesmo no Brasil, elas são pronunciadas. É o caso de pacto, aspecto, ficção, intelectual, opção, egípcio. Entre as poucas modificações no Brasil, perderão o acento os ditongos abertos "éi" (assembléia, idéia, plebéia) e "ói" (heróico, paranóico). Cairá também o acento circunflexo (não chapeuzinho como dizem alguns) nas flexões verbais "crêem", "dêem", "lêem", "vêem".

Agora, a alteração mais curiosa que cabe somente ao Brasil, pois em Portugal ela aconteceu em 1945. É a abolição do trema (substantivo masculino e não feminino como ouvi paulista falar); e que é o trema? Creio que a maior parte dos brasileiros alfabetizados não o conhece ou, pelo menos, nunca usou. Trata-se dos dois pontinhos no "u" de pronúncia espremida entre "g" ou "q" e "e" ou "i" como nas palavras "lingüiça", cinqüenta, "agüentar", "lingüeta". No tempo da máquina de escrever creio que ninguém se preocupava com ele e se estivesse a manuscrever, pior ainda. Trema foi e é como lei que "não pega" e não é aplicada. Passou a chamar a atenção para sua existência a partir da existência do computador pessoal e os programas de editoração. Como computador não erra em relação à sua programação, quando o programa não o aciona automaticamente, liberando o digitador da preocupação com aquela coisa tida como supérflua, uma minhoquinha vermelha se instala debaixo da palavra escrita sem o sinal requerido. E enquanto não chamados os dois pontinhos, a minhoquinha lá permanece a "gritar", como consciência premida por remorso.

No Brasil, as adaptações se farão ao longo de três anos e, ao fim de algum tempo, na internet ficaremos livres da dicotomia "Português de Portugal" e "Português brasileiro". Afinal, a língua lusitana é uma só!

nbatista@uai.com.br

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