Deixem o povo ser
patrão!...
Foi só se empossarem
reeleitos e novatos do Congresso Nacional, instalando-se então a
nova legislatura, para que membros seus mostrassem a que vieram,
depois da temporada de escândalos, que estarreceu a opinião pública
e colocou o país em posição de destaque desfavorável no mundo.
Embora, por ocasião da primeira sessão legislativa, tenha havido
manifestação em sentido contrário, o fato é que, antes, a polêmica
dos subsídios aos parlamentares se acendeu com o pleito de isonomia
com o Judiciário.
Barrados pela opinião
pública na tentativa de elevar a remuneração parlamentar ao nível do
valor pago aos membros do STF, deputados aventaram caminho
contrário, ou seja, o achatamento dos vencimentos dos juizes até que
os parlamentares os alcançassem com os mesmos valores, depois de
sucessivos reajustes. Não me parece que a preocupação dos
parlamentares seja com o valor dos subsídios (salário é para o
trabalhador comum) em si, pois seu valor nominal, longe de ser
desprezível, ganha mais volume com os penduricalhos que não são
poucos. O cerne da polêmica levantada pelos deputados é a distância
entre o que ganham eles e o que recebem os altos magistrados,
detalhe a ferir o orgulho dos políticos, pouco afeitos à idéia de
degraus acima daquele que pisam. Coisa de quem tem poder
simplesmente pelo poder!
É verdade que o Art. 2º da
Constituição Federal diz: "São Poderes da
União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o
Executivo e o Judiciário". Mas, em nenhum momento, o mesmo
documento diz que os Poderes da União são isonômicos! Os senhores
parlamentares precisam ler, ruminar, digerir e entender o que diz a
Constituição, pois ironicamente, ao pretenderem ser isonômicos - nem
sugerido no documento legal - deixam de ser independentes e
harmônicos conforme definido. E uma corrida d’olhos no dicionário,
com especial atenção ao verbete "isonomia", faria muito bem ao
conhecimento dos respeitáveis representantes do povo. Define-se como
"isonomia" (dic. Houaiss), segundo o Direito do Trabalho "princípio
que proíbe remuneração diferente para pessoas que, dentro da mesma
empresa, realizam atividades semelhantes". Supondo que o governo
seja empresa, não se vê nenhuma semelhança entre as atividades do
parlamentar, do magistrado, do presidente da República e do ministro
de Estado, o que joga por terra qualquer pretensão à isonomia
"salarial" pelos titulares das três esferas institucionais da
República. Ademais, veja-se a diferença nos currículos de uns e de
outros. Longe de ser um corpo angelical, pois tem lá também seus
demônios, a cúpula do Judiciário é a que mais cobra de seus membros
ao longo da vida, desde os bancos escolares. O currículo do jurista
é feito com muitas anos de estudos, sacrifícios e renúncias, além de
muita dedicação ao exercício da profissão e do cargo; muito
diferente do de muitos, hoje reinantes na política nacional, feito
de enganação, perturbação, conversa mole pra boi dormir e dias de
trabalho preenchidos com greves.
Já que políticos pensam
tanto em "salário" - direito do trabalhador - que tal cobrar-lhes
deveres correspondentes? O parlamento funcionaria como fábrica:
regime de um turno ou três, à vontade do povo; cartão de ponto; uma
hora para o almoço; um dia de folga por semana; férias (escalonadas)
anuais de trinta dias; pagamento só por dia efetivamente trabalhado;
máximo de treze salários por ano. E o mais importante: o valor do
salário seria definido pelo patrão, o POVO!...