PONTO DE VISTA DO BATISTA
Precedente perigoso
Entramos na segunda semana de dezembro, o último mês
de um governo que, com base no sucesso inicial do Plano Real, se estendeu
por oito anos, isso depois de uma alteração constitucional jogar por
terra a tradição da não reeleição para os cargos do Executivo. E a
apreensão tida frente à inflação desenfreada volta para trazer saudade
da euforia, quando depois de muitos anos, pôde-se ir às compras durante
algum tempo e comprar as mesmas quantidades, da mesma qualidade pelo mesmo
preço. Sob as explicações mais disparatadas, os preços se alteram
neste final de governo da mesma forma que se alteraram opiniões a
respeito do presidente eleito e seu partido durante a última campanha
eleitoral. Neste final de ano, sob os eflúvios das festas que voltam às
raízes pagãs, economia e política marcham sob a cadência das
incertezas, se bem que à simplicidade do poviléu tudo entrará nos eixos
a partir de primeiro de janeiro, numa harmonia mágica entre as promessas
do governo eleito e a tradição cultuada de que tudo se renova para
melhor no primeiro dia de cada ano.
Governo, há o que se mostra ao povo sob as mais
diversas formas de propaganda, incluindo-se programas de boa aceitação
pela sociedade, que servem para dissimular o governo de fato que não se
conhece e que se robustece nos bastidores. Uma ou outra vez, a interação
entre os dois deixa à mostra resquícios daquilo que verdadeiramente
acontece e que determina o destino comum da sociedade, mas acessórios
chamativos rouba a atenção da platéia, pouco afeita a observação de
detalhes aparentemente sem importância. Quando se abrir a contagem do ano
2003, novo governo inicia sua passagem à frente da nação com propostas
nunca antes apresentadas. Contudo, antes faz crer que o novo modelo em
nada representa o ressurgimento do que já ruiu em outros pontos do
planeta, mas temores existem, atrelados a suspeitas de que o atual governo
nada mais tem sido do que uma preparação para o que deve vir. As
suspeitas incluem a possibilidade de que o mesmo caminho seria trilhado
pelo futuro governo se o vencedor fosse o outro candidato, isso porque, no
fundo, os discursos tinham muita semelhança, embora fizessem crer em
fortes antagonismos a separá-los. Na transição em curso, os afagos de
lado a lado não seriam apenas gestos de mútua aceitação, sinais de
maturidade democrática e civilizada convivência de correntes políticas
diversas. Na verdade, seriam gestos de regozijo pelo alcance da meta
única traçada nos bastidores, porém colocada à platéia como duas
posições opostas. O tempo dirá se não têm fundamento os temores dos
que agora se furtam aos aplausos.
Enquanto se limpam as gavetas no atual governo, algo
acontece e poucos se dão conta do que representa para a consecução de
objetivos na mesma linha pelo governo entrante. Depois de duramente
criticada pela sociedade e engavetada durante algum tempo, a apelidada
"Lei da Mordaça", de repente, foi aprovada pela Comissão de
Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. De acordo com ela,
magistrados, membros do Ministério Público, ministros, autoridades
policiais e qualquer funcionário ficam proibidos de repassar
informações ao público e à imprensa sobre processos em curso. Além da
clara intenção de proteger agentes políticos réus em ações de
improbidade administrativa, a nova lei, como o próprio apelido sugere, é
a censura que volta, desta vez por lei, se aprovada em plenário, a toque
de caixa nos últimos dias da atual legislatura, sem que o mínimo de
debate se faça com a participação da sociedade organizada. E mui
sintomático é o silêncio dos que se preparam para assumir o governo.
Trata-se de um belo precedente para que, no futuro, outras agressões se
façam contra os direitos do cidadão; a quebra dos sigilos pessoais sem a
devida autorização judicial, por exemplo, sem qualquer sentimento de
culpa.
Há um bode solto no quarto escuro da democracia
brasileira!