Preconceitos
Pouco se lê em
jornais e revistas sem que, de alguma forma, nem que seja de passagem, o
preconceito seja sentido ou denunciado. Dos pecados humanos, talvez seja
ele o mais apontado por indivíduos e pela própria sociedade, mas é
interessante notar que quem denuncia e cobra o faz como se fosse isento
de culpa. Nada mais falso do que alguém se arvorar não ter algum tipo
de preconceito, pois este seria uma espécie de defeito de origem, do
qual nenhum humano dotado da razão estaria livre. É parte da natureza
humana, assim como são outras características também censuradas e
combatidas como prejudiciais à sociabilidade, aceita como base para a
construção de um mundo mais fraterno.
"Que atire a
primeira pedra quem não tiver pecado", sentença atribuída pelos
evangelhos ao Mestre Jesus, não perderia seu fundo de verdade se, nela,
a palavra "pecado" fosse substituída por
"preconceito". O preconceito tem muitas faces e cada um de
nós carrega pelo menos uma. Costuma-se pensar que o preconceito está
ligado tão somente a condições mais abrangentes como a raça, credo,
sexo, status sócio-econômico. Entretanto, essa censura particular
alcança outras particularidades do semelhante, não deixando de ser
reprovável por não estar incluída entre os preconceitos que se
poderia chamar "de massa", mesmo que dirigida a um único
indivíduo. Duvido que alguém não tenha ou, alguma vez, não tenha
tido aversão gratuita, isto é, uma antipatia sem explicação por
alguém com a qual nunca teve contato, por menor que seja. O que
diferencia umas pessoas das outras no que toca aos preconceitos é a
maneira de cada uma lidar com eles, deixando-os aflorar e atingir o
semelhante, prejudicando-o em sua auto-estima, em seus negócios, em sua
vida, enfim; ou controlá-los. O exercício da autocensura, ou
policiamento contra esse sentimento, deve estar entre os controles, que
o indivíduo de boa índole mantém sobre certas características de sua
personalidade. O instinto da violência, por exemplo, pode ser parte da
personalidade do pacifista, que só se mostra sob essa condição porque
tem o controle sobre seus sentimentos agressivos e os transforma em
ações pró-pacifismo. Com o preconceito dá-se a mesma coisa. O
indivíduo cônscio de suas responsabilidades e de que certas
diferenças, na verdade, nada representam diante do que é capaz a
espécie na realização do bem, controla seus sentimentos mesquinhos.
Há que estar
vigilante contra recados marcados pelo preconceito e discriminação,
vindos do inconsciente. E foi do inconsciente que deve ter brotado a
ilustração, um tanto preconceituosa, de matéria referente ao fundo de
pensão de grande empresa. Não creio que tenha sido feita de
propósito, assim como não creio que o fato tenha sido percebido e,
mesmo assim, mantido pela editoria da revista que, diga-se de passagem,
tem ótima apresentação. A matéria exibe uma série de ilustrações
que mostram diversas categorias de participantes do fundo: o ainda
empregado e contribuinte do fundo, o dependente, o assistido, pessoas
comprando e realizando negócios, todas representadas por figuras de cor
branca, bonitas e razoavelmente bem vestidas. Mas, há uma outra a
representar aquele que se desligou da empresa, mas continua a participar
do fundo. Esta figura é um homem negro vestido de maneira um tanto
desleixada. A ilustração vem confirmar que num grupo de empregados, se
um indivíduo tem de ser demitido a probabilidade recai sobre o único
negro. A empresa pode não adotar essa política discriminatória, mas
do inconsciente de alguns dos seus administradores, o preconceito está
a botar as manguinhas de fora.