PONTO DE VISTA DO BATISTA


Preconceito e discriminação cultural


Nunca antes se tinha realizado, em Ouro Preto ou, quiçá, em Minas Gerais - como é do gosto de alguém, em Brasília, assim se expressar - evento de tão bom gosto e bem organizado, voltado para banda de música. Anunciado com, pelo menos, quinze dias de antecedência, o festival “Bandas de Cá” tomou conta da Praça Tiradentes, diante de numeroso público, das sete horas, quando as participantes de todo o município de Ouro Preto, de Itabirito e de Mariana começaram a chegar, até o encerramento com show de música popular às vinte e uma, do dia onze de outubro, domingo. Exposição informava sobre a origem de alguns instrumentos e a decoração focada sobre as bandas, não se esqueceu das festas religiosas ao exibir bandeiras de santos padroeiros, que são festivamente erguidas em mastros à frente de igrejas, capelas e ermidas em todo o interior mineiro. Esses eventos religiosos constituem mais de noventa por cento das atividades das bandas de música; portanto, muito bem situadas tais bandeiras no contexto do evento “Bandas de Cá” que, por sua vez é a moldura para outra realização inédita, na área musical: o “Primeiro Concurso de Arranjos para Bandas de Música”.


Com base em ideia nascida em São João del-Rei, o projeto “Bandas de Cá” se encerrará naquela cidade, musical por excelência, mas, seus mentores e organizadores escolheram Ouro Preto como palco para o lançamento, embora aqui bandas de música não tenham gozado do merecido apoio oficial, como em outras comunas. É que, além do marketing cultural a envolver as duas cidades, os municípios de Mariana e de Ouro Preto, por seu passado como primeiras capitais mineiras, constituem pólo irradiante das bandas, mais concentradas num raio de cem quilômetros e destacadas as duas mais antigas, em atividade ininterrupta, no município de Ouro Preto.
O suporte dado pelo patrocinador, Sesi-Minas/FIEMG, é algo jamais visto no setor das bandas de música, prenúncio, talvez, de nova visão a se abrir sobre elas, considerando-se ainda que os organizadores revelam intenção de tornar o evento anual e incluí-lo no roteiro da Estrada Real.


Tudo isso foi mesmo que nada na pré-avaliação dos eventos a merecer espaço no boletim eletrônico “Circuito do Ouro” que, já na terceira edição, nada diz sobre o que acontece com relação a bandas de música, nas cidades do dito circuito. A segunda etapa do mesmo evento realizou-se no último domingo, dezoito de outubro, em Barão de Cocais (que deveria, mas não está no circuito), coincidindo com outro festival de bandas, desta vez só de maiores de cem anos, em Passagem de Mariana, como parte das comemorações relativas ao aniversário da S. M. Santa Cecília. A terceira etapa se realiza, dia 25 de outubro, próximo domingo, em Tiradentes e, pelo visto, também não é divulgada no referido boletim.


Os editores do boletim “Circuito do Ouro” desconsideram tais eventos como se inexistentes, não merecedores de, pelo menos, simples menção ao lado do decantado “Torneio de Porrinha” que, se apreciado, também merece divulgação. Mas, por que banda de música, não? Tal omissão teria passado despercebida, se eventual e isolada, ao contrário da constância com que se repete, aqui e em qualquer canto deste país grande e bobo, que se baba diante de rebolados lascivos, grunhidos e batidas de tantã, induzido por uma mídia vendida a interesses voltados contra a cultura nacional. Sob observação crítica de pessoas do setor, tal posicionamento se revela escancaradamente, enquanto em países mais evoluídos, os europeus, por exemplo, bandas de música são destacadas no conjunto das manifestações culturais.


Em território tupiniquim, omissão e referências pejorativas são parte de campanha dissimulada destinada a desacreditar as bandas junto ao público que, felizmente começa a perceber, nelas, o papel formador, educador e desenvolvedor de talentos no meio infanto-juvenil. Esse comportamento de descaso é preconceituoso, discriminatório e lesa-cultura, merecendo o repúdio de todos aqueles que lutam pela valorização da cultura local. Joguemos porrinha, mas ouçamos e valorizemos a banda de música também!
nbatista@uai.com.br

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