Preconceito português ainda
Quem se ocupa da tarefa de
escrever tem, de vez em quando, momentos de aridez mental cuja
conseqüência imediata é uma angústia torturante, se não resolvido
rapidamente o problema da carência de assunto a ser desenvolvido.
Quanto mais se prolonga o estado de improdutividade mental, mais
esforço se faz, e mais difícil fica encontrar o tema, assim como as
primeiras palavras do texto. É como o indivíduo que quer dormir e se
concentra no problema da falta de sono; só dorme quando esquece que
quer dormir. Há duas semanas uma dessas securas me atingiu e cheguei a
pensar em "repeteco" de um dos quase seiscentos textos já
publicados, ou este espaço teria de ser ocupado por algo diferente.
De repente, pintou-me o
incidente da "briga de banda de música no aeroporto". Quando
me dei conta, já havia produzido além da cota que me é reservada
semanalmente, e, mais ainda havia por escrever. Por essa razão, o texto
desta semana é o terceiro de uma série e, embora não mais trate do
tema banda de música, é dele derivado por força da reação à minha
apresentação como brasileiro em sala de bate-papo de "site"
português. Como disse, sem nunca ter entrado num antes, considerava e
considero o "chat" uma chatice. Depois do impacto negativo
sofrido na primeira experiência, mais longe deverei ficar de tais
reuniões virtuais. Eu hein! Ser repudiado como se culpado,
isoladamente, por problemas sociais que afetam o país como um todo é o
fim da picada!
O Brasil não é o único,
não é o primeiro e nem será o último a ter pobreza visível nas
ruas. Países europeus, que hoje ostentam prosperidade e comem caviar,
também já tiveram seu dia de mingau, mesmo tendo a seu favor, por
séculos, a economia sanguessuga colonialista. Portugal, então, seria o
último país com direito a críticas sobre a situação social
brasileira, consciente que deveria estar de sua responsabilidade como
colonizador durante trezentos e vinte e dois anos; tempo em que foram
moldadas nossas virtudes pela tenacidade com que nos firmamos neste
chão, e também nossos defeitos, boa parte deles trazida pelos que
tomaram posse do território em 1500. Portugal tomou posse do Brasil
como o garoto que ganha um brinquedo e não sabe o que fazer com ele.
Não mandou para cá indivíduos empreendedores, idealistas e
desbravadores, cujo propósito fosse o trabalho em prol da expansão da
civilização neste rincão. Os primeiros que aqui ficaram, seguidos de
mais outros para cá mandados, eram da ralé rejeitada pela sociedade
lusitana, gente que tinha contas a prestar aos tribunais, ou de alguma
forma não se ajustava à ordem vigente. Por longo tempo, o Brasil.foi
para Portugal apenas uma grande reserva florestal, de onde era extraído
o pau-brasil e, quando, resolveu pela colonização de fato optou pelo
fatiamento do território, entregando cada pedaço a um privilegiado da
coroa. Nasceu assim o latifúndio e aconteceu a primeira mamata.
Reconhecidas as capitanias hereditárias como primeiros latifúndios
improdutivos e descobertas as primeiras jazidas de minerais e pedras
preciosas, Portugal decide pela corrida ao ouro e ao diamante, mas, não
tinha mão-de-obra que aceitasse a transferência para o Brasil.
A qualidade dos primeiros
colonos aqui deixados havia deixado marcas na sociedade laboriosa
portuguesa, que via na transferência para o Brasil nivelamento com a
escória degredada. Frustrada também a tentativa de transformar os
índios em mão-de-obra barata, o colonizador português introduziu o
negro sob a escravidão mais degradante. Estava então criada a
principal causa da pobreza no Brasil! Assim tendo sido quando Portugal
tinha metade do mundo aos seus pés, que não nos recriminem e
discriminem agora os portugueses!