PONTO DE VISTA DO BATISTA

O prefeito sumiu

Antes de tudo, vamos levantar hipóteses em que seria um de nós o protagonista principal, o agente desencadeador dos fatos, homem ou mulher, solteiro ou casado, mas de alguma forma participante da sociedade. Suponhamos que seja você a tal pessoa. Como foi formulado acima, não importa se você é homem ou mulher, solteiro ou casado. De alguma forma você é integrante da sociedade, como estudante, empregado, patrão, líder de grupo ou qualquer outra situação, que o ligue a outras pessoas. Ninguém está isolado, seja rico ou pobre.

Pois bem, em determinado dia você desaparece. Seus familiares pensam que você está em suas atividades costumeiras fora de casa, e seus parceiros nas tais atividades o julgam confortavelmente em casa. No confronto dos dois pólos percebe-se que você está fora da órbita rotineira. Em palavras nuas e cruas, você sumiu; do ponto de vista do seu mundo, é claro. De repente, seus familiares, amigos e demais pessoas do seu relacionamento se mobilizam e a polícia também no sentido de desvendar o mistério do seu sumiço. Já há quem pense que pode ter sido seqüestrado, ou morto. Em tempo de tanta violência em que não se escolhem vítimas para tentar arrancar alguma grana, ou para abater como se faz a uma mosca, pode-se dizer que considerá-lo já defunto é a primeira reação de quem se dispõe a procurá-lo. No círculo mais íntimo, lágrimas se derramam de saudade antecipada, mas há também os que quase se denunciam satisfeitos por verem o caminho livre da sua figura. Tudo se agita em torno do seu desaparecimento, até mesmo quem não o conhece! Com as esperanças no fim e apressadinhos já a pensar na missa de sétimo dia, ocasião propícia para as honras negadas em vida, eis que você é encontrado vivinho da silva. Não foi seqüestrado, não estava sob ameaça de nenhum bandido. Estava preso, sim, nos braços de "gatas" que o acompanhavam na fome de gandaia, regada a muita bebida. Por um instante, seus amigos sinceros respiram com alívio, mas imagine o que vem a seguir, depois de compararem os momentos de aflição vividos com a esbórnia que você decidiu se conceder, isolando-se de todos, assim sem mais nem menos. Uma ou outra pessoa, sob surto de bondade e compreensão em relação à sua coragem e conseqüente feito, poderá dar-lhe razão. Mas, no geral, mesmo invejando-o, o mundo se virará contra você. É a reação natural, pois, embora cultivemos nossos egoísmos e queiramos viver uma vida pessoal, somos seres sociais e interagimos no nosso meio. Por isso não há como uma pessoa socialmente integrada se isolar, de forma unilateral, sem ferir direitos de terceiros, pelo menos no que tange à tranqüilidade.

Se o cidadão comum deve medir as conseqüências de um auto-isolamento, uma autoridade constituída tem o dever de estar "visível" a todo o tempo para a comunidade de sua jurisdição, anulando-se qualquer pretensão de isolamento, sem que antes obtenha a devida licença. São ossos do ofício da pessoa pública! Nada disso foi considerado pelo prefeito que permaneceu desaparecido por dois dias, o que chegou a incomodar até o presidente da República. O homem jogou no lixo o manual de boa conduta política, não escrito, porém existente e que deveria ser seguido por quantos desejem merecer o respeito do povo.Diz-se que a lei não prevê punição para o caso, e, a turma dos panos quentes argumenta que nenhum crime se cometeu, mas, se de outro partido fosse o prefeito, já estariam a pedir sua cabeça.

nbatista@uai.com.br

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