PONTO DE VISTA DO BATISTA
 

Presepada eleitoreira


Boca existe para falar e, ouvidos, para ouvir! Dentro desse princípio, se equilíbrio houvesse entre o imperativo da fala e a passividade da audição, mediante qualidade e sinceridade da primeira, paciência e boa vontade da segunda, as relações humanas estariam em patamar onde desavenças e conflitos seriam raridade. Como a natureza humana comporta imensa gama de variáveis quanto à personalidade, nem sempre prevalece a harmonia, pois o desequilíbrio desanda a partir dos que falam sem satisfazer em qualidade e sinceridade e vão além do que comporta a boa vontade do ouvinte. E os meios usados por políticos, na relação do poder com o povo, constituem o pior que existe em contraposição à expectativa da coletividade quanto ao bem estar vislumbrado.


Apenas seis meses separam este texto de outro aqui publicado, dentro do mesmo tema, ou seja, o uso abusivo das necessidades coletivas em campanhas eleitorais, para tudo ser esquecido a partir da conquista do poder. Foi dito então que a exemplo da seca do Nordeste, necessidades e anseios populares são mantidos indefinidamente como recursos, guardados na “geladeira”, para serem usados nas campanhas eleitorais. A cada eleição lá vem a mesma cantilena, que o povo ouve e por ela vai ao delírio, esquecendo-se de ter ouvido e sentido aquelas mesmas sensações em diversos momentos pretéritos. Ao longo do tempo o quadro se mantém o mesmo: de um lado, o político a repetir as mesmas promessas como se novidades fossem, e do outro o povo, sempre esquecido quanto ao já ouvido e sofrido.


Pois bem. O tema era a duplicação do trecho urbano da Rodovia dos Inconfidentes (ou Avenida Pedro Aleixo) em Cachoeira do Campo, anunciada com pompa e circunstância por diversas vezes ao longo dos últimos oito anos, sem que – além de sucessivas medições do trecho em questão - qualquer coisa tenha sido feita para dar início às obras.


Transformada em cochichos e conchavos em direção às duas próximas eleições, além do “derrame de medalhas”, a solenidade do recente “21 de Abril” serviu para se repetir o mesmo lero-lero, desta vez usando o vice-presidente da República como nos espetáculos de ventriloquia. Mais uma vez encheram os ouvidos do povo com promessa da qual somente ingênuos e os de memória curta esperam cumprimento; isso para ficar só no vício das promessas vãs de cunho eleitoreiro, pois a duplicação de alguns poucos metros da rodovia não tem sentido e nem lógica, quando se sabe toda ela precisar daquele melhoramento. E problemas decorrentes da interseção da rodovia com vias locais, agravados com o aumento do volume do tráfego rodoviário e do trânsito local, podem ser resolvidos com recursos técnicos mais imediatos e menos onerosos.


Por muito que Cachoeira do Campo seja amada por nativos e adotivos, em sã consciência não se vê razão para ser contemplada com tamanha prodigalidade! Só mesmo a manipulação inescrupulosa, a serviço de projetos eleitoreiros, pode engendrar e sustentar ao longo do tempo mentira como essa. Duplicação não é alargamento, mas construção de outro trecho de rodovia, paralelo ao existente, que implica em desapropriações em toda extensão da obra. E rodovia a cortar centro urbano não está afinada com modernos conceitos rodoviários. Se obra de tal monta tivesse que ser executada em Cachoeira do Campo, para resolver conflito entre o tráfego rodoviário e o trânsito urbano, o bom senso aconselharia construção do contorno. É bom lembrar que, de acordo com testemunhos de ocasião, pelo projeto original a estrada não teria o atual traçado em Cachoeira do Campo. No sentido Belo Horizonte/Ouro Preto, ao invés de cruzar o Rio Maracujá (ponte da Vargem) ela viraria à esquerda, passaria ao lado da “serra” da Mãe Engrácia em direção à Rua Tombadouro, que seria cruzada, e seguiria até o Fecho do Funil. Teriam sido economizadas duas pontes ( da “Vargem” e do “Vai-e-Vem”) e dois cortes em pedreiras!


Desçam das nuvens, senhores políticos! sintonizem-se com a realidade e poupem os ouvidos do povo de presepadas!
nbatista@uai.com.br

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