PONTO DE VISTA DO BATISTA

Projeto inútil e ridículo

Sarney descia tranqüilamente a rua quando, de repente e ao longe, avistou indivíduo em relação ao qual não nutria os melhores sentimentos. Não perderia a oportunidade de azucrinar um pouco a vida do seu rival. Por isso, apressou os passos e, mais perto, ao final de surpreendente carreira deu o bote, do qual o Lula se livrou com um salto ao topo do muro.

Já se vê que não se alude aqui ao presidente do Senado Federal e ao presidente da República, cada qual a cuidar de sua fatia de poder, cônscios de suas responsabilidades e alheios ao fato de um cão e um gato ostentarem seus respectivos nomes. Em nada se sentem diminuídos, como de fato não são, como cidadãos e como autoridades, pelo fato de ditos irracionais terem recebido dos seus donos dois nomes famosos entre os humanos. Por sua vez, quem põe nomes de pessoas em animais não o faz com a intenção de diminuir aquelas, senão valorizar seus amigos, os bichinhos de estimação. Não querem eles imputar às pessoas qualidades irracionais, porém dar alguma notoriedade aos amiguinhos mais próximos entre os animais. Isso é o que pensa o autor desta coluna, também proprietário de animal doméstico com nome de gente, sem que com isso queira ofender quem tenha o mesmo nome.

Mas, por incrível que pareça, corremos o risco de cair na lista de infratores, sujeitos às penalidades da lei, multa ou prestação de serviços comunitários, enquanto os bandidos deitam e rolam contra tudo e contra todos, se aprovado Projete de Lei, autoria de petebista gaúcho com assento na Câmara Federal. Tal PL no Art. 1º diz que "Fica proibido o uso de nomes próprios, prenomes ou sobrenomes, nacionais ou estrangeiros, comuns à pessoa humana, em animais domésticos, silvestres ou exóticos". Entre outras considerações, o deputado justifica sua proposição: "o nome próprio, que tem função individualizadora e identificadora é o resultado da filiação do sujeito. Representa suas raízes e, comumente, esclarece seu sexo. O nome próprio é o sinal distintivo que leva o seu portador a ser conhecido na sua família e na comunidade em que vive. Além disso, lembrará os méritos , os deméritos e a idoneidade do seu titular". Adiante, acrescenta: "Está evidente que o nome dá unidade à pessoa, pois está no ser humano, compondo parte psicossocial de si mesmo. Inseparável do seu titular, dá-lhe exclusividade e adere à sua personalidade, constituindo o mais vivo representante da sua pessoa. O nome é símbolo da personalidade humana, pois desenvolve-se junto com o sujeito e não se extingue com a sua morte".

Todo esse arrazoado defende muito bem a escolha sensata do nome e deveria ser usado, isso sim, para justificar proposição que proibisse aos pais e responsáveis de apor nomes esdrúxulos, ridículos, às vezes humilhantes, para evitar os "constrangimentos e prejuízos psicológicos"; constrangimentos e prejuízos que o deputado, no fechamento das justificativas, diz ocorrer "nos desgastantes encontros entre homem e animal que compartilham o mesmo nome" e que, na verdade, ocorrem quanto ao nome em si, registrado, que o portador nem ao seu bicho de estimação daria. Creio que a grande maioria da população não vê inconveniente - que nem o próprio deputado define claramente - e espera seja o tempo do mesmo parlamentar empregado em algo para todos nós mais proveitoso, extensivo aos animais sob nossos cuidados.A tese do deputado é meio furada, porque, pelo que se sabe, nenhuma Michelle dentre as mulheres, protestou ou reclamou contra a Michelle residente no canil do Palácio da Alvorada. Pode ser que os constrangimentos aconteçam em situação inversa, ou seja, com animal de algum pobre Zé mané! Mas, aí não é constrangimento, é preconceito!

nbatista@uai.com.br

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