PONTO DE VISTA DO BATISTA

Propaganda antiética

"Propaganda é a alma do negócio"! Poucos conceitos reúnem em torno de si concordância, admitida como unânime ou nos limites da unanimidade, deixando de lado ranços ideológicos ao substituir "negócios" por pensamentos, idéias e doutrinas de qualquer natureza. Existente desde que o homem aprendeu a falar, em atendimento à necessidade de se comunicar, a propaganda se organizou e assumiu caráter de atividade indispensável à frente de qualquer iniciativa humana: atividades comerciais ou expansão de pensamentos, idéias e doutrina. Surgiu como atividade planejada e organizada por meio da congregação Propagare Fide, criada pela Igreja para "propagar a fé", daí também o nome propaganda. Associada aos modernos meios e métodos de comunicação, a propaganda é vasto campo, explorado ao infinito pela criatividade humana, sob todas as faces da arte, mas há também o outro lado, onde impera o mau gosto e às vezes o equívoco.

Ficou na memória lamentável mensagem veiculada na televisão, ainda em preto e branco, referente à inauguração da iluminação pública em pequenas cidades do interior. Para mostrar o contraste entre o velho e o novo - lampiões e lâmpadas elétricas - um filme mostrava crianças a apedrejar o antigo equipamento. Na época, ainda pobre em meios rápidos de comunicação, portanto sem como reagir imediatamente e à altura contra o estímulo ao vandalismo, a população se sentiu ultrajada e desautorizada na contenção a atos anti-sociais. Recentemente, foi uma operadora de telefonia celular. Em plena campanha de vendas natalinas, tal empresa fez veicular, na televisão, filme em que a figura do papai-noel, ao colocar presentes debaixo da árvore, retém pacote com o aparelho motivo da mensagem e o coloca no próprio bolso, depois de conferir à volta se não está sob observação de terceiros. Foi revoltante ver aquela mensagem, verdadeira apologia ao furto, crime a solapar, de alto a baixo, a pirâmide social deste país.

Entre apologias ao vandalismo e ao crime, há também anúncios que difundem preconceitos, ofendem, criam constrangimentos, agridem e difamam, tudo isso para enaltecer qualidades de produtos e serviços em busca de sua fatia no mercado. E, muitas vezes, isso acontece porque o público aceita sem contestar, sem se indignar e cobrar reparos por abusos, ainda que involuntários, mas prejudiciais.

Anúncio da Amanco, indústria de tubos e conexões de PVC, em página inteira do jornal "Estado de Minas", de 15.04, domingo passado, é desses que promovem produtos à custa do ridículo e preconceito. Como símbolo de barulho, dito ausente na aplicação dos produtos em foco, o criador da peça publicitária tinha à disposição várias fontes de poluição sonora como símbolo, mas usou instrumento musical. De qualquer instrumento musical ali não caberia o uso, mas valeu-se ele justamente do souzafone (ou tuba), adotado quase exclusivamente pela banda de música, instituição que mais forma músicos no Brasil e desenvolve trabalho social dos mais meritórios, revelando e desenvolvendo talentos entre jovens. Formada por homens e mulheres entre oito e oitenta anos, comporta em suas fileiras todos os ofícios e profissões, até de nível superior, entre os quais muitos da área da construção civil, como bombeiros hidráulicos (ou encanadores) que instalam os produtos anunciados.

Todos os músicos (qualquer instrumento) e bandas de música foram ofendidos e alvos de preconceito, uma vez instrumento musical é usado para produzir música e não barulho.

Durmam com um barulho desses, produzido pela Amanco, é claro!

nbatista@uai.com.br

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