O pum da discórdia
Por muito que se queira
elitizá-la, tornando-a um conjunto de apenas fatos notáveis segundo a
visão da própria elite humana, a História é muito mais que os
grandes acontecimentos cujos registros chegam até as gerações
ulteriores por meio dos compêndios. Na sucessão dos acontecimentos,
incidentes aparentemente sem importância para aquele momento acabam
sendo causas de alterações na vida de todo um grande grupo de
indivíduos. Ao folhear uma revista (Super Interessante ed. 185/fev.03),
chamou-me a atenção o relato de um acontecimento, que merece ser
conhecido. Como nem todos têm condições de pagar R$7,90 por uma
revista, faço aqui um resumo adaptado da narrativa.
O fato se deu no ano 44 depois
de Cristo, em Jerusalém; mais precisamente, no Templo de Jerusalém.
Celebrava-se o Pessach, feriado judaico da purificação. Quem dominava
o mundo de então era Roma e, por isso, soldados do exército romano se
espalhavam por todos os cantos da cidade com a missão de controlar as
turbas, sempre inquietas diante das forças de ocupação. Para a guarda
do templo foi destacado um soldado, irreverente por natureza, e talvez
por isso mesmo escolhido para aquele local. Conquistadores e dominadores
costumam ridicularizar costumes do povo dominado e zombar de sua
cultura, religião etc. Naquele dia o cardápio à mesa do tal soldado
deve ter sido uma combinação muito explosiva, pois seus intestinos
estavam revoltos com a expansão de gases, o que o tornava num enorme
inconveniente para o local e momento de um povo extremamente zeloso com
as coisas da religião. Mas aquele soldado, extensão do poder de César
até onde império romano alcançava, era como as nossas conhecidas
"otoridades" do tipo "sabe com quem cê tá falano?";
não ligava a mínima para o orgulho dos judeus como "povo
escolhido por Deus". E foi numa daquelas reviradas no ventre que o
romano, de costas para a multidão de judeus, abriu o
"escapamento" e mandou ver. Disparou uma sucessão de traques
como faz a barulhenta motocicleta quando o motoqueiro nos perturbar. Em
outras ocasiões não teria passado de um incidente banal, mas naquela
ocasião, além da fedentina que se espalhou pelo recinto sagrado, o
flato soou como insulto e desrespeito a explodir a indignação contra o
dominador. Diante daquele abuso, houve judeu que também se esqueceu que
estava no templo. Um pandemônio se estabeleceu no lugar de oração e
adoração! Como consequência do "pega pra capar" em que o
romano se tornou centro da fúria judaica, reforços chegaram das tropas
de César quase que imediatamente. Como naquela época não havia
viaturas, nem sirenes, dá para imaginar o pocotó-pocotó-pocotó
(talvez aí a inspiração para a "obra-prima" do momento) da
cavalaria romana convergindo para socorrer o peidorreiro. O
corporativismo militar de um lado e o excesso de zelo religioso -
temperado com uma pitada de patriotismo – do outro provocaram um
morticínio dos mais terríveis que a História registra. Se não
exagerado o historiador judeu, Flavius Josephus, ou equivocados seus
sucessivos tradutores (quem conta um conto aumenta um ponto) dez mil
pessoas teriam morrido na refrega de paus e pedras contras lanças e
espadas. Esse detalhe até que sugere um paralelo com certas guerras
contemporâneas.
Atualmente, em reuniões tidas
como determinantes para o bem estar da coletividade, cérebros em estado
semelhante ao dos intestinos daquele militar romano produzem
"puns" de efeito ainda mais devastador.