Terminou nesta madrugada
de sábado, 27 de março de 2010, sob aparato de grande espetáculo,
com direito a fogos, tal qual abertura de desfile de escola de samba
ou final de jogo de futebol, a sessão do júri, talvez a maior em
número de público acompanhante por meio dos meios de comunicação,
que julgou o casal, pai e madrasta apontados como matadores da
menina, filha e enteada Isabella, de apenas cinco anos. A tragédia
ocorreu há dois anos e comoveu todo o país.
Sem testemunha dos fatos,
mas assentada em resultados periciais, nem sempre isentos de falhas,
segundo especialistas, a acusação sustentou a tese diante da opinião
pública durante os dois anos, aguardados pelos acusados, presos, até
o final do julgamento. Às vésperas da Semana Santa, celebração do
amor e caridade cristãos, personificados no Mestre crucificado
depois de celebrar a Páscoa em redenção da humanidade, o casal
chegou ao tribunal já condenado pela turba, presente no local, e
diante da telinha em todo o país. Ao final do julgamento gritos de
alegria pela condenação! Chocante, pois ainda que nenhuma dúvida
girasse em torno da culpabilidade dos réus, regozijar-se com sua
condenação não é próprio de civilizados, levando-se em conta que
condenação por júri popular é algo triste, não só para o réu, assim
alijado da sociedade, mas para esta mesma, que corta na própria
carne parcela que se degenerou. Não é para festejar e, sim,
lamentar!
Poucos desviaram a atenção
das fortes evidências, que levaram à conclusão de culpa, para
analisar, por exemplo, o comportamento dos acusados. Durante dois
anos, presos, sofreram grande pressão psicológica, por parte da
polícia à qual cabe apontar culpados por delitos praticados, por
parte do Ministério Público que denuncia e leva a julgamento, e por
parte da imprensa, que cobra esclarecimentos para a opinião pública
e o cumprimento da lei. Em nenhum momento, qualquer um dos dois
admitiu culpa no caso, rebatendo sempre as acusações com o grito da
inocência, ainda que também não apresentassem provas. Não é fácil ao
ser humano resistir a tal tipo de pressão. Se verdadeiramente
culpado, há um momento em que a resistência se desmonta. No caso em
pauta, outro detalhe chama atenção. Em crimes por coautoria
(praticados por duas ou mais pessoas), depois de algum tempo, não
muito, verifica-se a tendência da acusação mútua; a tentativa de
lançar a culpa exclusiva no parceiro. Isso é próprio da natureza
humana. Não houve isso entre o pai e a madrasta da menina Isabella,
embora sempre dito pela mídia que os dois tinham relacionamento
muito difícil, recheado de brigas, destacando-se ainda personalidade
frágil do réu, ao qual se atribui psico-dependência paterna. Na
tentativa de provar inocência, a defesa do casal chegou a contratar
os serviços de notório médico legista, para pesquisa de provas
contrárias às apresentadas pela polícia técnica. Não se explica a
lógica de culpado consciente contratar personalidade tão destacada
que, forçosamente, poderia chegaria ao mesmo resultado apontado pela
polícia. Poucos dias após a queda da menina, descobriu-se que o
oficial PM, responsável pela varredura do prédio logo após o fato,
estava envolvido com rede de pedofilia. Suicidou-se no momento em
que seria preso dentro de sua casa. Teria sido apenas coincidência?
Foi apurada possível conexão? Não mais se falou sobre o fato.
Chamou também a atenção a
fala do pai do réu, mais ou menos com estas palavras: "toda a
família está com a consciência tranquila, sei que meu filho é
inocente, e essa tranquilidade persistirá qualquer que seja o
resultado" (do julgamento). Quase a mesma coisa foi dita pelo pai da
madrasta.
Por fim, além da
habilidade do promotor, tão elogiada, passou despercebida para
muitos seu estranho conceito de verdade e pitada de vaidade nesta
declaração: