Rastros antigos das
picuinhas ouropretanas
As chamadas
"coincidências" e a similaridade das denominações, observadas quanto
à distribuição dos templos religiosos antigos no espaço geográfico
de Ouro Preto se repetem no caso da fundação das duas bandas de
música atuais. Ambas tiveram a idéia de fundação lançada em 1932 e
iniciaram atividades no ano seguinte: os nomes são similares e
correspondentes às duas igrejas que se contrapõem nos extremos
leste-oeste da cidade. Muitos dos músicos, assim como os
instrumentos seriam remanescentes das duas corporações extintas,
havia pouco tempo, "Nossa Senhora da Conceição"/Antônio Dias/Jacuba
e "Santa Cecília"/Pilar/Mocotó. Por sua vez, as bandas "Nossa
Senhora da Conceição" e "Santa Cecília" devem ter tido antecessoras,
que desapareceram sem deixar vestígios. A julgar pelo que se conhece
de outras manifestações, as entidades "Sociedade Musical União e
Fraternidade", "Sociedade Musical União e Confraternidade" podem
mesmo ter sido duas bandas de música, uma em cada parte da cidade,
assim como "Euterpe Ouro-Pretana" e "Filarmônica Ouro-Pretana".
Observe-se bem a similaridade entre os nomes, característica da
competição então existente.
As duas bandas
ouropretanas atuais não têm uma história de rivalidade como a
existente em Cachoeira do Campo, entre Banda Euterpe Cachoeirense/de
Cima/Tropa/Cascudos e Sociedade Musical União Social/de
Baixo/Barbeiros/Chimangos, mas é quase certo que, por trás de sua
criação, está o antigo antagonismo existente entre as duas partes da
cidade. Enquanto no distrito de Cachoeira do Campo a rivalidade é de
tom competitivo e marcante entre as bandas de música, porém sem
exacerbações, em decorrência de suas origens políticas, na cidade de
Ouro Preto, a bipolaridade se assenta na própria comunidade como um
todo e tem raízes mais profundas, ou seja, na dicotomia
colonizado/colonizador do início da cidade, que se acentuou com as
diferenças sociais. Lembremos, de passagem, que a Matriz do Pilar
era o templo onde se celebravam os atos religiosos oficiais, ou
encomendados pelo governo português. Da inauguração da Matriz do
Pilar há registro do célebre "Triunfo Eucarístico" (suntuoso cortejo
que fez o traslado do Santíssimo Sacramento, da igreja do Rosário
para a igreja que se inaugurava). Da Matriz de Nossa Senhora da
Conceição/Antônio Dias não se sabe de festa correspondente, mas é
quase certo que houve. Não há muito, fechou-se o Colégio Alfredo
Baeta que, instalado no bairro Antônio Dias, ensinava aos mais
pobres e competia com o Colégio Arquidiocesano, voltado para a elite
e instalado no bairro das Cabeças/Pilar. Entre os que contam mais de
sessenta anos, quem não se lembra das brigas entre alunos daqueles
dois colégios? Quando os dois grupos se enfrentavam, na verdade,
eram moradores das duas vertentes do Morro Santa Quitéria, que
tentavam "tirar suas diferenças". Na área de entretenimento e
eventos sociais, a bipolaridade era representada, no lado do Pilar,
pelo CAEM-Centro Acadêmico da Escola de Minas, cuja data maior é o
12 de outubro, aniversário daquela escola de engenharia e do seu
idealizador, o imperador Pedro II; no lado do Antônio Dias, pelo
Clube Recreativo XV de Novembro, hoje enfraquecido, cuja festa maior
se confundia com as celebrações da Proclamação da República.
De um lado, Pilar com
reminiscências da monarquia e o poder da elite imperial; do outro
lado, Antônio Dias a enaltecer a República e o teórico "poder do
povo pelo povo, para o povo".