PONTO DE VISTA DO BATISTA

Ratos e gatos em destaque

Primeiro foi a melancia, trambolho aguado da família das cucurbitáceas, talvez uma abóbora que não deu certo por presunção subtendida na sua extravagância entre frutos de trepadeiras. Essa qualidade lhe vale o galardão, como símbolo da evidência exagerada dos não merecedores, sugerindo-se a tenham pendurada ao pescoço, para que mais vistos sejam. E é bom não esquecer também o contraste entre sua aparência externa, de um verde exuberante, e o conteúdo interno totalmente vermelho, lembrando-nos a qualidade de certos políticos enganadores (olha a redundância aí!). 

Também já chamado balancia, ora quase restrito aos dicionários, esse caprichoso depósito natural de água chegou a mudar seu formato sob intervenção de interesse econômico, que via desperdício de espaço na estocagem e no transporte do produto. A forma esférica deu lugar à cúbica pelas mãos de japonês, que dispensa adjetivações oriundas da curiosidade e habilidade, pois estas são qualidades inerentes à sua natureza; mas convenhamos, a vaidosa melancia merece continuar redondinha e portadora das demais características, pois só assim ela é o que sempre foi: uma abóbora metida a besta! Felizmente parece que a experiência, tão besta quanto o objeto da intervenção, na prática não empolgou, evitando-se que a moda se espalhasse aos demais hortifrutigranjeiros esféricos e assemelhados. Imaginem se entendessem de resolver o mesmo problema com relação aos ovos; coitadas das galinhas!

Pois bem, do mesmo Japão, saltando do campo de cultivo para laboratórios de pesquisas, anuncia-se rato diferente, que não tem medo e nem corre de seu predador, o gato. Não é dito com que finalidade os cientistas alteraram a estrutura genética do roedor, e seria bom que isso não passasse da experiência, pois com relação ao bichano, este continuaria a ter o rato como objeto predileto de caçada e tortura, antes de saboreá-lo como petisco. Sob a nova condição, o rato morreria como pateta a brincar com os bigodes do gato, e isso – queiram-me desculpar os sábios nipônicos! – é sadismo. Não se trata de defender o intruso roedor, sabidamente prejudicial à economia doméstica e à saúde humana, mas, tirar-lhe o medo, única arma contra a destreza do rival, é o cúmulo do tripúdio humano sobre o vencido, valendo-se da mão do gato. Que, em troca, lhe fosse dada bravura, ainda que inútil diante do gato, pois se tem que morrer que morra lutando. É o direito dos bravos!

E o próprio bichano acabaria por se sentir desprestigiado, desestimulado, não mais tendo a correria do rato como desafio à sua astúcia. E aí quem nos protegeria do concorrente no consumo do queijo? Quem policiaria nossos domínios internos, impedindo que papéis, móveis e outras “trenheiras” fossem triturados?

Sem medo do gato, seu maior predador, nem do seu miado ou odor, o rato comeria à mesa e deitaria em nossa cama. Bastante discriminado, por não ser subserviente como o cão, o mais puxa-saco dos animais ditos domésticos, e por gozar da liberdade que o homem pensa ter e não tem, o bichano se tornaria a maior vítima, perdendo o pouco do prestígio que resta junto aos que se consideram seus donos.

Assim como a melancia continuou redonda, não se espalhando pelo mundo sob a forma de dado gigante, esperemos que o novo rato não saia do laboratório. A criação do novo rato surpreendeu meio mundo, com exceção do Brasil onde há muito se conhece espécie de rato que não tem medo de gato; ou pior, não tem medo de nada!

 E onde ela mais ocorre é Brasília!

 nbatista@uai.com.br

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