PONTO DE VISTA DO BATISTA

Falando de ratos...  cantantes!

A ciência não pára de surpreender o mundo com novidades, umas ansiosamente aguardadas, outras nem tanto, e ainda outras de uma terceira classe, dispensáveis, pelo menos à primeira vista, pois não nos mostram de imediato a utilidade, que seria desejável em tudo que vem dos laboratórios de pesquisa. Se algumas doenças avançam na fila para ter seu controle ou cura definitiva, outras se mostram renitentes a milhares ou milhões de vítimas agarradas a uma esperança. Se alguns inventos ou descobertas ajudam e melhoram as condições de vida, outros não acrescentam muito.

Saber, por exemplo, que ratos cantam tais quais pássaros, embora algumas oitavas acima do limite alcançado pelo ouvido humano, talvez seja uma dessas descobertas que pouco ou nada ajudam a não ser enriquecer a lista do conhecimento inútil. E se eles cantam, que bom não os ouçamos, pois para nosso desespero bastam os incômodos de sua presença e estragos causados onde metem seus focinhos xeretas. Se apenas um, aparentemente mudo, incomoda muita gente, imaginem o mesmo a cantar, ainda que dotado do virtuosismo do sabiá; isso antes que nos lembremos da capacidade de o rato, em companhia da rata, se multiplicar bem perto de nós, porém oculto aos nossos olhos. Enfurnados nos labirintos inferiores de velhas casas em Ouro Preto, por exemplo, esses cantantes dissimulados, se captados por ouvidos humanos, seriam tortura à altura daquelas tidas como próprias do inferno, bem indicadas como pena ou castigo a certos atores no teatro da vida coletiva. Lembremo-nos das vezes em que, inadvertidamente, deixamos o queijo ao alcance de estranhos e o encontramos roído. Agora se sabe que o impertinente "conviva", enquanto praguejávamos contra si, poderia estar na toca, ali perto, a cantar vitória contra nossa impotente brabeza; brabeza essa só remediada com a presença do bichano, por sua vez escorraçado pelo orgulho humano por ser o "bon vivant", que o bicho-homem também almeja ser, mas não consegue. Depois de forrar o bucho roendo nossa comida, o pilantra canta, certo de que não é ouvido, porém satisfeito em tripudiar sobre o perdedor!

Os pesquisadores não dão maiores detalhes quanto à qualidade do canto do rato, mas a natural predisposição felina contra o renegado roedor leva à pressuposição de que seus dotes em canto não encantam o gato, que se sabe dotado de audição aguçada, combinada com bom gosto musical. Talvez aí mesmo esteja a explicação para a eterna corrida do gato contra o rato. Canto de qualidade duvidosa não agradaria aos ouvidos do bichano, a ponto de irritá-lo e desencadear-lhe fúria raticida, configurando-se então a vingança do bicho-homem por vias transversas. Confirmada a tese, eis oportuna advertência: que se cuidem "jecas do asfalto" com suas "tralhas elétricas" e outros produtores de ruídos eletrônicos, passíveis de despertar em seu semelhante o mesmo sentimento do gato ao ouvir o rato cantante.

Felizmente, de acordo com a descoberta, a voz do rato se situa quatro oitavas acima da capacidade auditiva humana, razão pela qual o bicho-homem até agora se mantinha ignorante quanto ao "talento" do intruso doméstico. E podia assim ter continuado sem nada perder em termos práticos. Contra o rato comum, devorador do nosso pão de cada dia, destruidor de livros e móveis, basta o gato com fome. Não é necessário conhecer dele talentos, mesmo porque diante disso alguém pode querer fazê-lo simpático. Rato é rato, e, fim de papo!

Entretanto, existem outros a merecer atenção especial, sobretudo os do gênero rattus brasiliensis, alguns também cantantes, para os quais o remédio seria uma grande ratoeira, depois de fazê-los compensar as roídas no dinheiro do povo!

nbatista@uai.com.br

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