PONTO DE VISTA DO BATISTA

Reaprender a relação humana

Fala-se em paz e, por ela, se mobilizam comunidades inteiras mediante manifestações ruidosas a cobrar ações governamentais no combate à violência; belos discursos são proferidos; textos são redigidos às centenas (incluindo-se este); e a cada extrapolação da violência, a autoridade se apresenta ao público com promessas de mundos e fundos. Apesar das juras e promessas oficiais, nada é feito para conter a violência que, mais tarde é superada por ação ainda mais grave por parte da marginalidade. Grita-se, com razão, contra a omissão das autoridades de todos os setores e escalões, contra falhas e frouxidão das leis favorecedoras da impunidade.

Passo a passo, ao correr do tempo, a violência cresce em número, intensidade e grau de ofensa, desviando, ao mesmo tempo, mais atenção e recursos, que seriam do trabalho produtivo para a realização da segurança da sociedade, por iniciativa própria. É assim que proliferam grades, muros, cercas eletrificadas, sistemas eletrônicos de vigilância, organizações de segurança privada e tudo o mais que se cria, para compensar a insuficiente ou falta de segurança pública.

Enquanto as atenções se voltam para a criminalidade e violência em seu grau maior, ou seja, quando causadoras de maior impacto e ofensa à opinião pública, não se cuida, por exemplo, de evitar pequenas transgressões à ética no comportamento humano. E são essas pequenas posturas antiéticas e ações marginais, que conduzem a outras e mais outras, cada vez mais altas na escala da violência, até atingir o clímax da comoção nacional e internacional.

Alegoricamente, criminalidade e violência são como a poluição nas bacias hidrográficas que, combatida tão somente no rio principal, não se cuidando das águas dos regatos, córregos e riachos, que o alimentam, é como enxugar gelo; debalde os esforços para limpar o rio principal, pois a sujeira se manifestará continuamente em toda a bacia.

Há que repensar o modo de vida e se reeducar toda a sociedade, nas mínimas facetas do relacionamento humano, a começar do berço, pela valorização do respeito, que consiste no reconhecimento dos direitos do próximo. No momento em que todos entendem que os direitos do próximo são iguais aos seus; que o considerado bom para si pode não o ser para o vizinho; que no espaço público, há que respeitar regras comuns a todos, instala-se a harmonia social com consequente redução dos índices de criminalidade e violência. Voltar-se-ia às práticas do passado, quando não havia necessidade de parte da atenção do Judiciário direcionada aos juizados de Conciliação para solução de casos como pequenas dívidas, divergências quanto à divisa de propriedades, desvio de águas para terreno do vizinho, rixas familiares, entre outros problemas triviais, grande parte não resolvida porque a impunidade, a grassar em patamares mais altos, estimula o não acatamento às decisões tomadas de comum acordo. Muitos dos denunciados nem comparecem às audiências e outros chegam ao desrespeito para com servidores do judiciário, como o grito de denunciado contra seu denunciante, que testemunhei, diante de oficiais de Justiça, dentro do Fórum. Como reação, nada aconteceu, nem o pagamento da dívida!

Muito antes que se criasse o Juizado de Conciliação, em cada comunidade o juiz de Paz não era tão somente o oficiante do casamento civil. Era a ele confiada a solução das questões menores, não resolvidas espontaneamente entre as partes, sendo sua autoridade acatada sem questionamentos. Mas, nessa época, palavra empenhada era palavra cumprida e o maior bem do cidadão era o nome honrado, razão pela qual os poucos ousados, em confronto com a lei, a ética e os costumes, não tugiam nem mugiam diante do juiz de Paz: cumpriam o acordo ou a determinação.

nbatista@uai.com.br

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