Recomeçar a mesma coisa?
Janeiro, ressaca pós festas de fim de ano, desespero de
muitos com as contas que não têm férias ou teimam em aparecer somente nesta
época, curtição nas praias pelos que alguma sobra têm da farra, ou frustração
com a falta do sol, que também tirou férias, deixando invernada em lugar do
veranico. No Planalto Central, à falta de escândalos porque atores e autores
continuam em festa, mais disputa por poder e espera do momento para o bote certo
na pecúnia, reclamada como pouca para o feijão com arroz parlamentar. E se de
cima novamente se anuncia o espetáculo do crescimento, atrasado quatro anos, o
país se mira no buraco da omissão, cavado por vaidades e irresponsabilidades,
onde se sepultam sonhos de vida. O buracão paulistano, vulcão implosivo a
engolir somas e vidas como resposta à incúria, ante-sala da ganância, é bem o
símbolo do que vai entre a política e as necessidades do povo. Salvam-se os do
sistema e se perdem os demais!
Sepultados os cadáveres de fato, ficam os cadáveres da ética,
responsabilidade e lealdade, fétidos e passíveis de corromper, a assombrar o
meio oposto. Acamada a poeira das CPIs, mais geradoras de notoriedade de que
resultados em favor da moral e do bem estar da nação, mobilizam-se as forças
para novo ciclo, que seria de debates e decisões pró coletividade, mas diante do
passado mais recente e de protagonistas por ele marcados, fica a dúvida a
atormentar.
Não há muito a se esperar do sistema que aí está, viciado e
corrompido, entregue a alguns caciques cujos interesses pessoais se colocam
acima dos da nação. Não há como melhorar o conteúdo do Congresso Nacional com a
manutenção do atual sistema político-partidário. Neste, a vontade de poucos
prevalece acrescida do poder de manipular as bases do respectivo partido, na
verdade cauda dos interesses dos que formam a cúpula. Fosse outra estrutura com
prevalência do bem maior representado pelos ideais verdadeiramente democráticos,
envolvidos nos recentes casos de corrupção teriam sido alijados do parlamento. O
que se fez foi retirar o grosso do entulho, deixando para trás o restante da
sujeira! Se melhorou a composição do novo Congresso com a chegada de novos
componentes somente depois de alguns meses se saberá, mas convém não alimentar
esperanças. A julgar pelo princípio da maçã podre no cesto, o destino do novo
Congresso será o mesmo. E nele não ficou só uma maçã podre!
Corrupção não é pecado exclusivo do Brasil mas, lá fora, é
severamente punida e os nela envolvidos dificilmente conseguem se manter na
atividade. Mesmo assim, a credibilidade dos políticos tem caído em todo o mundo,
pois os que escapam da corrupção nem sempre servem à causa maior, limitando-se
ao mínimo no cumprimento de seus deveres e auferindo o máximo das regalias que o
cargo lhes confere. Surgida em Atenas/Grécia, onde o povo era consultado em
praça pública sobre as principais decisões a serem tomadas, a democracia se
prostituiu no dia em que surgiram os partidos políticos. Criados,
presumivelmente, com a finalidade de abrigar as diversas tendências de opinião
dentro da sociedade, os partidos descambaram para o que são hoje: meros currais
sobre os quais meia dúzia de políticos tem total domínio.
A verdadeira democracia precisa ser restaurada. Com os meios
de que dispõe, a sociedade poderia se organizar a partir das associações
comunitárias e gerir diretamente a política. A classe política já tem a corda no
pescoço, mas quem se dispõe a chutar o tamborete em que ela se apóia?