Redoma dos covardes
São tantas as pauladas
levadas pelo povo que, ao ver políticos contrariados numa de suas
pretensões de mais poder e menos responsabilidade por seus atos, há
uma espécie de frenesi entre cidadãos. Por um momento, pensa-se ter
baixado a lucidez à cabeça dos que têm o destino do país nas mãos e
que a verdadeira Política passa a ser praticada. Passado o delírio
de cidadania, percebe-se não ter mudado nada. E não muda nada porque
a causa dos atropelos políticos continua a existir.
Ao Projeto de Lei
Complementar, apresentado pelo Ministério Público com o objetivo de
criar gratificação para promotores, que trabalham em mais de uma
comarca em Minas, ditos representantes do povo na Assembléia
Legislativa fizeram tantas emendas de seu interesse, destacando-se
entre elas a mutreta, que dava aos próprios deputados e muitas
outras autoridades, nos três poderes, o privilégio de terem suas
ações investigadas exclusivamente pelo procurador geral de Justiça,
limitando assim a ação dos promotores. Embora combatido e denunciado
publicamente como altamente nocivo à imagem do estado democrático,
no qual privilégios não se permitem, o PLC foi aprovado. Passando
por cima do estabelecido em nível nacional e criando precedente, que
ainda tumultuaria outras unidades da federação, os deputados
mineiros, ardilosamente, se valeram de pretensão defendida pelos
promotores de Justiça, para dar o bote.
Só não vê não quer o que
há por trás da emenda feita ao PLC. Não é só privilégio! É porta
aberta para escapar mais fácil de punição por qualquer deslize no
exercício do mandato e da função pública. Se punição já é difícil
tendo todo o Ministério Público na investigação, com esse poder
concentrado no Procurador Geral, o investigado nunca chegaria a
julgamento. Mesmo com o sistema de alarme ligado pela sociedade,
políticos pensam apenas em vantagens pessoais, legais, extralegais e
ilegais, que o mandato pode proporcionar aos menos inescrupulosos,
não lhes despertando qualquer interesse pelo sentido da causa
pública.
Felizmente, o ímpeto dos
parlamentares mineiros foi contido pela caneta do governador ao
vetar integralmente o tal Projeto de Lei Complementar. Não há, pois,
motivo para comemorar em relação a qualquer correção de rumo por
parte dos parlamentares. O perigo não passou porque a Assembléia
Legislativa pode derrubar o veto, o que alguns consideram
improvável. E mesmo que não seja derrubado, o perigo continua
latente na mentalidade imperante, dentro da Assembléia e cá fora na
sociedade, entre muitos que pensam um dia ocupar (só mesmo ocupar)
uma cadeira no Legislativo mineiro. Não se iludam, porque mesmo
entre os que condenam há os que fariam a mesma coisa. Falta-lhes
apenas a ocasião.
E sistema sem salvaguardas
contra a atuação do político marginal, onde este pode tudo, amparado
em leis por ele próprio criadas, a democracia é apenas fachada e o
bem público é do que for mais esperto.