De vez em
quando, se faz necessária uma relaxada, escapar de temas sisudos, ou
quase, a que nos acostumamos neste espaço semanal, aberto há vinte e
dois anos. É como o próprio trabalho ou qualquer atividade
rotineira, que nos prende por algum tempo e da qual nos abstemos,
temporariamente, em favor do lazer, da higiene mental ou... da
ociosidade pura, por que não?
Sem saber se
aquilo era sonho ou realidade, pois acabara de acordar e estava
pronto para me levantar, embora ainda fossem três e meia da
madrugada, o estranho barulho fez-me voltar no tempo, algo em torno
de cinquenta e sete anos. O ruído era semelhante ao de objeto
circular, relativamente pesado, lançado sobre superfície plana, de
forma a gingar e girar sobre si próprio, como piorra, até se
acomodar.
Talvez
sugestionado pela participação no "O Dom Bosco é Nosso", movimento
que tem por ideal a reversão da transação imobiliária e a
continuidade da missão educacional, no antigo quartel colonial,
depois da saída trapalhona dos salesianos, na tela da minha mente
surgiu o ambiente do antigo colégio, onde passei parte da minha
adolescência. Vi-me, então, em classe, durante a única aula
encravada entre o grande recreio pós-almoço e a hora da merenda
(café das duas), a ouvir aquele tilintar, muito estranho aos ouvidos
e a mexer com a curiosidade nos meus primeiros dias de estudante
semi-interno do célebre educandário. Por estar em classe à hora
infalível do ruído, custou-me algum tempo até ter oportunidade de
testemunhar o fato, esclarecendo-se o mistério, sem que tivesse que
perguntar a alguém, revelando-me curioso simplório.
O tilintar vinha
dos refeitórios (dois só para alunos), cujas mesas de mármore,
desnudadas das toalhas para o almoço, eram preparadas para a merenda
servida às quatorze horas. Quatro copeiros, um a cada fileira de
mesas, com grande pilha de pires iam lançando-os à frente de cada
cadeira (seis a cada lado e duas às cabeceiras). Sob a habilidade e
rapidez dos funcionários, os pires giravam como piorra durante bom
tempo, produzindo aquele ruído característico até se acomodar sobre
a superfície do mármore. Ao lançar o último pires da segunda mesa, o
primeiro pires lançado ainda girava; por isso o ruído característico
a lembrar o toque simultâneo de mil sinetas. Lançado o último pires,
vinham então as enormes tigelas (não eram simples xícaras) de louça
branca bastante espessa, não mais vistas atualmente. Às quatorze
horas, em fila indiana (para tudo havia fila) entrávamos no
refeitório e encontrávamos dois grandes bules de alumínio (um de
café, outro de leite ou, em ocasiões especiais, chocolate) em cada
mesa e, sobre cada tigela um pão crocante, produzido em padaria da
casa, pelo padeiro Waldemar Campos. Os copeiros, agora de avental
branco, ficavam a postos para atender solicitações à medida que se
esgotavam os preciosos líquidos dos bules.
Eles se
revezavam na execução de outras tarefas fora da copa, e, a grande
maioria já pediu transferência para o além, mas seus nomes ficaram
ligados à generosidade e cavalheirismo com que nos atendiam. Alguns
nomes me escapam, mas me lembro do Donato, do Ary, do José Machado,
do Juca Junqueira, do Antônio Torres, do Adão, do Geraldo
"Quatrocentos" e do Jaime Viana (que está aí para confirmar a
história).
No refeitório,
antes da oração, que ninguém se atrevesse a se sentar e, dada a
autorização para isso, não se podia ouvir arrastar de cadeira.
Quebrada a disciplina nesse pormenor, todos eram obrigados a se
levantar e se sentar, tantas vezes quantas fossem necessárias, até
não mais se ouvir o ruído. A conversação, em tom civilizado, sem
vozes acima do normal, só era iniciada a partir do Deo Gratias,
emitido pelo regente disciplinar do refeitório que, nas divisões de
médios e maiores (tamanho dos alunos) era o próprio padre
conselheiro (diretor geral de disciplina). Algo em torno de cinco a
dez minutos antes do final do almoço, ou jantar, aluno destacado
para isso subia a uma espécie de tribuna para ler. Eram obras
literárias lidas, por etapas, a cada refeição. Nesse momento,
cessava a conversa. A comunicação necessária, para solicitar o
repasse de pratos entre os alunos em cada mesa, se fazia então por
números representados pelos dedos: um dedo significava farinha;
dois, feijão; três, arroz; quatro, qualquer outro prato ("mistura"
no jargão paulista) não enquadrado nos itens anteriores; e cinco era
água, ou qualquer líquido. Finda a refeição, havia o sinal para se
levantar, também sem arrastar de cadeira, e se fazia a oração de
agradecimento. Ao sair do refeitório, se algum grito se destacasse
do alarido normal, o culpado (identificado em flagrante,
indisciplinado era culpado mesmo e não suspeito como, hoje, o réu de
crime confesso) corria o risco de voltar ao refeitório e ali ficar,
até que o regente resolvesse liberá-lo.
Da sala de aula,
de vez em quando, ouviam-se, no pátio, chamados a: Môôôises!...
Môôôises!... Môôôises!... Era o padre Mário Forestan, último diretor
italiano, que passou pelo Dom Bosco, necessitando contato com o
Moisés Galante, espécie de engenheiro não titulado, que resolvia
problemas mais complexos nas áreas da construção civil, da mecânica
e da eletricidade, incluindo-se sua geração.