Embora a atitude
dos salesianos tenha causado muita e justa indignação, creio que os
que beberam dos seus ensinamentos no período áureo daquele
educandário - a primeira casa salesiana em território mineiro - não
gostariam que prevalecesse a máxima "a última impressão é que fica",
constantemente lembrada pelo irmão leigo salesiano, professor Fábio
Nogueira (Desenho e Geografia) em relação àquela instituição de
ensino que, por mais de cem anos, preparou jovens para a vida, em
Cachoeira do Campo.
O próprio Fábio
Nogueira era figura ímpar, muito respeitado e admirado por seus
conhecimentos e pela maneira como se relacionava com os alunos.
Muito rígido, não admitindo qualquer distração ou brincadeira em
suas aulas, dava broncas homéricas por qualquer ato indisciplinar,
mas sabia temperar isso com brincadeiras em momentos certos. Tendo
trabalhado em vários pontos do Brasil, destacando-se aí a Região
Amazônica, corrigia e complementava dados fornecidos pelos livros de
geografia. Entusiasmava-se quando falava sobre o caráter, ética e
costumes dos índios, bem como a relação destes com a natureza. À
parte do livro, os alunos deviam ter caderno só para anotar
informações e curiosidades. Para ajudar na memorização, ensinava a
técnica mnemônica e, por ocasião de provas, lembrava muitas dicas
vinculadas às questões, sem levantar suspeitas ao fiscal de classe,
se houvesse. Com ele só não aprendia quem não queria! O Prof. Fábio
Nogueira era também o responsável pela papelaria interna, onde se
compravam os livros adotados pela casa e todo o material escolar.
Diante de tanta
corrupção e avanço da criminalidade sob o beneplácito de leis, que
não primam pela punibilidade, ex-alunos do Dom Bosco lembram que ali
nada ficava impune. Um dos castigos por ato indisciplinar ou de
insubordinação era copiar, determinado número de vezes, o capítulo
que tratava do relacionamento entre alunos, destes com os superiores
e com a própria família, dentro do regulamento. As cópias deviam ser
feitas, de pé junto a uma das colunas do pórtico, no pátio interno,
sem nela encostar. O aluno, em cumprimento de pena, só era liberado
do castigo para ofícios religiosos, para alimentação, para aulas e
para dormir. Em casos mais graves, continuava de pé no refeitório,
e, assim tomava as refeições. Havia punição também para a omissão,
tratada como cumplicidade, quando o aluno pelo menos não tentava
coibir a indisciplina. Lembro-me de caso específico e extremamente
grave, dentro da minha classe.
Estávamos em
aula de instrução religiosa e o professor era o venerando Pe.
Francisco Zai, italiano, decano da casa, a contar mais de oitenta
anos de idade. Já estava dispensado de ensinar, mas ele fazia
questão de continuar em sala de aula. Tinha movimentos lentos, via e
ouvia com deficiência própria da idade. Dois ou três alunos dos mais
atrevidos principiaram atos de deboche ao padre, sob o riso dos
demais. Para cúmulo da indisciplina, alguém arrancou página do livro
que continha respostas à pequena prova em andamento, e colou às
costas do professor. Da minha posição, na fileira de carteiras junto
à janela aberta para o pátio, percebi quando o Pe. Mário Forestan, o
diretor chegou e, sorrateiramente, se encostou à parede do lado de
fora. Ainda tentei avisar, por sinais, aos colegas, mas era tarde
demais! O diretor chegou à janela e o silêncio caiu como pedra na
classe. Ordenou que nos levantássemos e o seguíssemos, em fila, até
o pátio. De frente para o sol escaldante, entre as doze e quatorze
horas, ele colocou toda a turma em posição de sentido, como se
militares fôssemos, sem poder mexer um dedo. Antes disso, ordenou
que abotoássemos o uniforme até o pescoço. Nessa posição e condição
ficamos por cerca de uma hora! Ao fim do castigo, estávamos a suar
em bicas com a roupa grudada ao corpo.
Foi duro o
castigo? Foi, mas considerada à luz dos conceitos morais da época, a
gravidade do ato indisciplinar, triplamente qualificado, até que
requeria pena maior. Todo o grupo, por ato direto, ou omissão,
subverteu a ordem em classe, desrespeitou o professor, desrespeitou
pessoa idosa e parcialmente deficiente.
Ao contrário do
que se pode imaginar, em círculos mais tolerantes, ex-alunos do
antigo Dom Bosco não recriminam os padres pela rigidez da disciplina
a que eram submetidos. Nos muitos encontros de confraternização do
grupo, realizados anualmente, percebe-se a avaliação positiva feita
pela maior parte.