PONTO DE VISTA DO BATISTA

Reminiscências do Dom Bosco III

A severidade com que era conduzida a educação no Colégio Dom Bosco, por vezes, produzia equívocos, tidos no momento como injustiças e contra as quais alunos não tinham defesa, em razão da subalternidade absoluta a que estavam sujeitos; impedidos de contestar sem riscos de cair novamente em indisciplina. Digo injustiças de momento, como poderia chama-las injustiças relativas, porque dentro de contexto mais amplo, o ato injusto momentâneo é absorvido pela justeza no geral. E no caso do Dom Bosco, esse tipo de coisa podia agredir nosso ego, podia melindrar, mas, no geral, ganhava-se no muito no aprendizado para a vida. Desses equívocos, já relatei um de que fui vítima, dentro da classe, e volto a abordá-lo, pois se trata de exemplo totalmente oposto ao que acontece, hoje, nas escolas, quando o professor pode até ser morto, não por errar, mas por querer acertar dentro da sala de aula.

Cursava o quarto ano e tinha por professor de Latim, um clérigo (ainda não ordenado sacerdote) meio ranzinza. Ele se chamava Raimundo (não confundir com o homônimo da escolinha na TV) e não sei por que cargas d’água não morria de amores por mim, e, o mesmo ocorria comigo em relação a ele. Não amarrávamos a égua na mesma estaca, de jeito nenhum! Lá um belo dia, o professor de Português foi transferido e a cadeira acabou sendo acumulada pelo dito Raimundo. Fiquei a imaginar como seria minha vida de estudante, nas mãos daquele professor, daí em diante a reger-me interesses do aprendizado em duas frentes. A primeira aula transcorreu sem sobressaltos. Na segunda, a título de avaliação da turma nos conhecimentos do vernáculo, o professor Raimundo deu tarefa de redação a ser entregue no prazo de quinze dias.

Exultei de contentamento, sem demonstrações exteriores, pois ali estava a oportunidade de eu mudar minha imagem junto a ele. Desde o antigo curso primário, sempre me destacava na redação de textos. E fora graças a um desses textos que o diretor do Oratório Festivo, Pe. Luiz Zver, nascido na então Iugoslávia, conseguira uma vaga no Colégio Dom Bosco, para que eu prosseguisse nos estudos. Esse mesmo padre havia criado e editava a "Flâmula", revista interna, onde eu havia feito minha primeira publicação, quando ainda cursava admissão ao ginásio. Portanto, tinha motivos para acreditar que a má impressão junto ao professor Raimundo seria apagada Empenhei-me com gosto para produzir bom trabalho. Redigi, corrigi, emendei, aparei arestas, enxuguei o texto. No dia combinado, todos nós entregamos as tarefas. O professor prometeu reservar toda uma aula na semana seguinte, quando os trabalhos, corrigidos, seriam devolvidos mediante pequena crítica.

No dia combinado, o professor anunciou o trabalho classificado em primeiro lugar; não era o meu. Fiquei arrasado com a desagradável surpresa e, ao serem apresentados o segundo e o terceiro, passei a esperar pelo pior, considerando a predisposição do professor em relação a mim. Ele entregou um por um dos mais de trinta textos. Quando faltava apenas um, ele pigarreou, empertigou-se e fuzilou: - Agora mostro a vocês todos o que, em situação diferente, na vida lá fora, seria crime e consequente cadeia. Agitando a folha no ar, acrescentou: - Isto aqui é uma fraude! O responsável por ela pensou que podia me enganar, trazendo texto escrito por outra pessoa. Senso de autocrítica ele simplesmente não tem. A qualidade do trabalho entra em choque frontal com a mediocridade e a falta de caráter de quem teve a ousadia de se apresentar como autor diante deste professor. Por este ato de fraude ele merece ZERO mensal até o fim do ano. Muito mais ele falou, sem citar meu nome, antes de me chamar à frente e devolver a folha toda riscada em vermelho. A classe viu e ouviu, surpresa, pois meus colegas eram testemunhas, em outras ocasiões, de destaques por mim conseguidos com redação em classe.

Finda a aula, enchi-me de coragem, fui ao padre conselheiro, que me conhecia bastante, e expus o acontecido. Ele só me ouviu. Posteriormente, tomei conhecimento de que minha nota fora corrigida no Diário de Classe, confirmando-se isso mediante o boletim mensal, mas, a reparação em classe o professor Raimundo ficou me devendo. O episódio mexeu muito comigo, mas, por ele aprendi que há fatos injustos, decorrentes de opinião ou avaliação pessoal de terceiros, porém inócuos em relação ao quadro geral de nossas vidas. Não chegam a prejudicar, a menos que se lhes dê importância não merecida. Mais na tarde, na vida adulta, isso me ajudou a compreender e superar outros casos de injustiça momentânea ou relativa.

nbatista@uai.com.br

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