A severidade com que era conduzida a
educação no Colégio Dom Bosco, por vezes, produzia equívocos, tidos no
momento como injustiças e contra as quais alunos não tinham defesa, em
razão da subalternidade absoluta a que estavam sujeitos; impedidos de
contestar sem riscos de cair novamente em indisciplina. Digo injustiças
de momento, como poderia chama-las injustiças relativas, porque dentro
de contexto mais amplo, o ato injusto momentâneo é absorvido pela
justeza no geral. E no caso do Dom Bosco, esse tipo de coisa podia
agredir nosso ego, podia melindrar, mas, no geral, ganhava-se no muito
no aprendizado para a vida. Desses equívocos, já relatei um de que fui
vítima, dentro da classe, e volto a abordá-lo, pois se trata de exemplo
totalmente oposto ao que acontece, hoje, nas escolas, quando o professor
pode até ser morto, não por errar, mas por querer acertar dentro da sala
de aula.
Cursava o quarto ano e tinha por professor
de Latim, um clérigo (ainda não ordenado sacerdote) meio ranzinza. Ele
se chamava Raimundo (não confundir com o homônimo da escolinha na TV) e
não sei por que cargas d’água não morria de amores por mim, e, o mesmo
ocorria comigo em relação a ele. Não amarrávamos a égua na mesma estaca,
de jeito nenhum! Lá um belo dia, o professor de Português foi
transferido e a cadeira acabou sendo acumulada pelo dito Raimundo.
Fiquei a imaginar como seria minha vida de estudante, nas mãos daquele
professor, daí em diante a reger-me interesses do aprendizado em duas
frentes. A primeira aula transcorreu sem sobressaltos. Na segunda, a
título de avaliação da turma nos conhecimentos do vernáculo, o professor
Raimundo deu tarefa de redação a ser entregue no prazo de quinze dias.
Exultei de contentamento, sem demonstrações
exteriores, pois ali estava a oportunidade de eu mudar minha imagem
junto a ele. Desde o antigo curso primário, sempre me destacava na
redação de textos. E fora graças a um desses textos que o diretor do
Oratório Festivo, Pe. Luiz Zver, nascido na então Iugoslávia, conseguira
uma vaga no Colégio Dom Bosco, para que eu prosseguisse nos estudos.
Esse mesmo padre havia criado e editava a "Flâmula", revista interna,
onde eu havia feito minha primeira publicação, quando ainda cursava
admissão ao ginásio. Portanto, tinha motivos para acreditar que a má
impressão junto ao professor Raimundo seria apagada Empenhei-me com
gosto para produzir bom trabalho. Redigi, corrigi, emendei, aparei
arestas, enxuguei o texto. No dia combinado, todos nós entregamos as
tarefas. O professor prometeu reservar toda uma aula na semana seguinte,
quando os trabalhos, corrigidos, seriam devolvidos mediante pequena
crítica.
No dia combinado, o professor anunciou o
trabalho classificado em primeiro lugar; não era o meu. Fiquei arrasado
com a desagradável surpresa e, ao serem apresentados o segundo e o
terceiro, passei a esperar pelo pior, considerando a predisposição do
professor em relação a mim. Ele entregou um por um dos mais de trinta
textos. Quando faltava apenas um, ele pigarreou, empertigou-se e
fuzilou: - Agora mostro a vocês todos o que, em situação diferente,
na vida lá fora, seria crime e consequente cadeia. Agitando a folha
no ar, acrescentou: - Isto aqui é uma fraude! O responsável por ela
pensou que podia me enganar, trazendo texto escrito por outra pessoa.
Senso de autocrítica ele simplesmente não tem. A qualidade do trabalho
entra em choque frontal com a mediocridade e a falta de caráter de quem
teve a ousadia de se apresentar como autor diante deste professor. Por
este ato de fraude ele merece ZERO mensal até o fim do ano. Muito
mais ele falou, sem citar meu nome, antes de me chamar à frente e
devolver a folha toda riscada em vermelho. A classe viu e ouviu,
surpresa, pois meus colegas eram testemunhas, em outras ocasiões, de
destaques por mim conseguidos com redação em classe.
Finda a aula, enchi-me de coragem, fui ao
padre conselheiro, que me conhecia bastante, e expus o acontecido. Ele
só me ouviu. Posteriormente, tomei conhecimento de que minha nota fora
corrigida no Diário de Classe, confirmando-se isso mediante o boletim
mensal, mas, a reparação em classe o professor Raimundo ficou me
devendo. O episódio mexeu muito comigo, mas, por ele aprendi que há
fatos injustos, decorrentes de opinião ou avaliação pessoal de
terceiros, porém inócuos em relação ao quadro geral de nossas vidas. Não
chegam a prejudicar, a menos que se lhes dê importância não merecida.
Mais na tarde, na vida adulta, isso me ajudou a compreender e superar
outros casos de injustiça momentânea ou relativa.