Para encerrar
esta série falo um pouco de figura, citada de passagem em textos
anteriores que, em meu tempo, se destacava de várias formas no corpo
docente do Colégio Dom Bosco. Escolho o padre José Tavares Baêta
Neves, ou simplesmente Padre Baêta, como era conhecido, em razão de
comentário injusto endereçado a todos aqueles educadores, dos quais
o padre figurou como exemplo pela língua maldosa de pessoa
desconhecida, ao meu lado, dentro de ônibus.
O padre Baêta
caminhava à margem da rodovia, nas proximidades do colégio, como
costumava fazer depois do almoço. Ao vê-lo, o desconhecido com ar
arrogante comentou: "lá vai um vagabundo, que só sabe comer e
dormir".
Aquelas palavras
me causaram repulsa e imediata reação, pois eu era uma das muitas
testemunhas do quanto todos trabalhavam no "Dom Bosco",
especialmente, o Padre Baêta. Baixinho e gordo, o Padre Baêta era
reconhecido de longe, até mesmo pelo modo de andar, ligeiro e a
passos miúdos. Rosto redondo e moreno, ostentando olhos miúdos e
irrequietos, queixo confundido com farta papada a se dobrar sobre o
colarinho clerical, o Padre Baêta era dessas pessoas, que gostam de
conversar, sobretudo, sobre assuntos polêmicos. E, quando criticava,
o fazia de forma contundente, não perdoando nem mesmo seus colegas
de batina naquela casa. Seu tema preferido nas conversas era a
política. Getulista ferrenho, era capaz de discorrer por horas sobre
Getúlio Vargas e seu ideal trabalhista. Lembro-me bem de como se
abalou, na manhã de 24 de agosto de 1954, quando o Repórter Esso
(transmitido por alto-falante ao pátio) anunciou o suicídio do
presidente.
Preferia ficar
mais à parte, não se atrelando aos colegas, exceção feita nos atos
religiosos e comemorações importantes da congregação e do próprio
estabelecimento. Durante o recreio, quando não passeava pelas
alamedas frutíferas, a rezar o breviário, Padre Baêta preferia se
juntar aos funcionários e alunos semi-internos. Era professor de
Francês – língua que falava fluentemente – da segunda à quarta série
e também de História Geral da quarta série. Para Francês, o aluno
era obrigado a ter quatro cadernos: dois para ditados e dois para
exercícios de gramática, de modo que o aluno sempre tinha dois em
seu poder, e ele os outros dois. A sobraçar pilha de cadernos
corrigidos, vários livros de gramática e o inseparável espanador
debaixo do braço, ele entrava na sala de aula como se estivesse a
caminho de apagar incêndio: rápido e agitado. Com o espanador,
espalhava a poeira de giz de sobre a cátedra e iniciava a aula: "dictée...
dictée... dictée" (ditado... ditado... ditado) "rápido... rápido...
rápido".
O aluno tinha
que ter o caderno aberto na página, caneta em punho e ouvidos
abertos, cuidando de fechada estar a boca. "Se alguém falar ou
tentar colar, eu meto os ferros!" "Prestem atenção, pois não
repito!" Ao fim do ditado, devolvia os cadernos do mesmo gênero, em
seu poder, devidamente corrigidos, e conduzia exercício de leitura,
seguido de lição sobre gramática. Ao fim, devolvia os cadernos de
exercícios, comentava sobre erros mais comuns e passava mais
trabalho a ser entregue na aula seguinte, quando o mesmo roteiro se
repetiria.
Mas, suas
atividades, ao contrário das dos demais professores, iam além da
sala de aula, pois, àquela época, era pároco em Glaura e em São
Bartolomeu. Em razão disso, era muito procurado por seus
paroquianos, para encaminhamento de processos de casamento,
estabelecimento de datas para batismo e outros procedimentos na vida
paroquial. Para auxiliá-lo no trabalho, escolhia um aluno da quarta
série, que concordasse em sacrificar algumas horas ao fim das aulas.
O aluno ajudava na correção dos trabalhos escolares, incluindo-se
provas, e também em tarefas pertinentes às paróquias. Tive o
privilégio de ser o escolhido, quando cursava a quarta série, e pude
aprender muito mais com ele, pois, enquanto corrigia, ensinava-me.
Quando o meu caderno ou folha de prova caía em minhas mãos, eu
repassava a ele, para que corrigisse, ao que ele observava: "você
mesmo corrige e atribui a nota que merece; sei que não sairá dos
limites". Entre as tarefas paroquiais, chamava-me a atenção os
processos de casamento. Por serem comunidades pequenas, antigas e,
relativamente, isoladas, havia muita união consanguínea. Esse tipo
de casamento demandava licença especial da Cúria de Mariana, razão
pela qual aprendi a redigir petição específica e a desenhar árvores
genealógicas dos noivos, para demonstrar o grau de parentesco entre
eles.
A amabilidade e
boa vontade, com que atendia seus paroquianos, rendiam-lhe pacotes
de queijo e doces daquelas comunidades, sobressaindo-se as imensas
barras de goiabada cascão, legítima; não essa goiabada ordinária, à
qual se adicionam cascas de goiaba, a ser vendida como "cascão"! E
essa gentileza ele dividia com seu auxiliar! Era o Padre Baêta,
apontado como vagabundo!