O setor
agropecuário do Colégio Dom Bosco era ainda pujante no meu tempo de
estudante naquela casa. Toda a área destinada à agricultura era
entrecortada por alamedas de árvores frutíferas como pera, manga,
ameixa, caqui, jabuticaba, castanha. Em grandes quadras se produziam
laranjas diversas, lima, limões, bananas também diversas, uvas,
pêssego e outras tantas frutas. Mas havia uma alameda especial para
alguns de nós dos semi-internos: era a dos pinheiros.
No mês de abril,
quando amadurecem os pinhões, entrávamos furtivamente na lavoura, em
dias de folga escolar, armados de bodoques ou estilingues e munição
composta de seixos, escolhidos à beira de córrego. Debaixo dos
pinheiros, púnhamo-nos à diversão, que era acertar as pinhas
maduras, e, ao prazer antecipado de ter os pinhões cozidos e prontos
para se comer. Muitos metros abaixo, no chão, nem sempre tínhamos
como avaliar se a pinha estava madura ou não. Somente quando
acertada com bodocada – e não era fácil – ela se revelava. Se ainda
verde, os pinhões fortemente unidos, a pedra batia e voltava. Se
madura, pinhões previamente separados uns dos outros pelo
intumescimento, a pinha se desfazia no ar, provocando "chuva" de
pinhões e grande alarido entre nós. Para facilitar a coleta dos
frutos, que se espalhavam no chão sujo de mato rasteiro, folhas e
galhos secos, pinhões podres, etc., costumávamos levar toalhas
velhas, estrategicamente colocadas debaixo das pinhas em foco.
Assim, a maior parte dos pinhões já caia separada.
Outro produto
muito apreciado eram as castanhas portuguesas; o problema estava em
sua colheita, pois vêm envoltas por carapaça de espinhos longos e
firmes como agulhas. Debaixo das castanheiras, só os sapatos (tênis
nem pensar) não nos protegiam, devido à quantidade de ouriços, uns
sobre outros. Tínhamos de proteger, pelo menos até a metade das
canelas. Obviamente, que as mãos recebiam proteção especial se não
as quiséssemos perfuradas pelas terríveis agulhas. Eram belas e
graúdas as castanhas, mas o risco de acidentes não compensava.
Tirá-las dos ouriços era outra trabalheira! Na maioria das vezes,
"víamos com os olhos e lambíamos com a testa"!
A horta ocupava
área bem maior que um campo de futebol e tinha como hortelão chefe o
José da Silva Rodrigues (Juquita), figura muito popular e benquista
em Cachoeira; razão pela qual não invadíamos aquele domínio para
surrupiar alguns dos belos e graúdos morangos. Esses, hoje, vendidos
em caixinhas, no comércio, não chegavam aos pés dos produzidos na
"horta do Juquita". O morango, fruta então exótica aos olhos da
maioria de cachoeirenses, era, para nós, o único produto a despertar
interesse imediato entre grande variedade de legumes e verduras ali
produzidos, mas o Juquita poderia ser responsabilizado se morangos
fossem furtados. Isso não queríamos. E aqui cabe uma curiosidade
ouvida de pessoa que, ainda garoto, integrou a equipe coordenada
pelo Juquita na colheita de morangos. Segundo o que me disse, os
garotos eram instruídos a assobiar, enquanto os colhiam. Assim
ficavam impedidos de comê-los enquanto trabalhavam. Em razão de sua
pequena produção, os morangos eram destinados exclusivamente aos
superiores e visitantes mais importantes.
Se era pequena a
produção de morangos, o mesmo não se podia dizer de outros produtos
que, de vez em quando, tinham superprodução. Certa vez, aconteceu
isso com a batata doce. E para apressar o consumo, o tubérculo
passou a ser servido ao jantar por alguns dias consecutivos. Alunos
das divisões, "médios" e "maiores" combinaram, então, rebelião para
o dia seguinte, caso a batata doce fosse novamente servida. O grupo
semi-interno de nada sabia pois a iguaria estava sendo servida
apenas ao jantar, refeição da qual os alunos cachoeirenses não
participavam. Tomamos conhecimento do que acontecia, quando certo
dia, ao almoço, somente o nosso grupo foi autorizado a se sentar e a
conversar. No dia anterior, ao jantar, tendo sido servida batata
doce novamente, as duas divisões a consumiram, lançando-a uns nos
outros, como em cenas de pastelões no cinema. O recinto ficou
totalmente tomado pelas batatas amassadas nas paredes, no piso, nas
mesas. Nesse dia, praticamente, ninguém jantou.
Como punição, as
duas divisões passaram uma semana a fazer as refeições, de pé, e em
silêncio. O episódio passou à história do Dom Bosco como "guerra das
batatas".