Como já foi
dito, o Colégio Dom Bosco possuía, nos pastos, grande rebanho bovino
do qual provinha a carne servida diariamente em todos os
refeitórios, alternada uma ou duas vezes semanais com carne suína,
também de sua criação. Quando em forma de bife, de tamanho razoável,
já vinha servida nos pratos e não havia repetição. Preparada de
outra forma, podia-se pedir mais porções à cozinha por intermédio
dos copeiros, ou os chefes de mesa (sentados às cabeceiras)
providenciavam em outras mesas, onde ela sobrava; não somente carne
mas qualquer outro prato.
E em se tratando
de carne, lembro-me de episódio curioso, acontecido em 1958, meu
último ano na casa. Surgido na Zona da Mata mineira, boato espalhou
que a carne bovina estaria a afetar a masculinidade. O bichou pegou
feio para açougues e açougueiros, pois, de repente, ninguém queria
saber de carne de boi (ou de vaca). O medo de perder a capacidade
inerente à masculinidade pôs os homens em polvorosa. E o alvoroço
não foi menor entre as mulheres!Assim como no mercado, dentro do
Colégio Dom Bosco, o boato fez o mesmo estrago: a carne passou a ser
refugada em todas as mesas, exceto na dos semi-internos. O grupo de
Cachoeira continuou a comer da carne, sem nenhum temor, diante dos
olhos arregalados dos internos. Aos que nos questionaram o
comportamento, explicamos que o boato se referia ao rebanho da Zona
da Mata. Se fosse verdade, estaria afeto tão somente ao gado daquela
região. Acrescentamos que, em casa, nós também passamos a comer sem
carne, pois não se conhecia sua procedência; mas, no "Dom Bosco", a
carne vinha de animal criado em seus próprios pastos. Diante dessa
explicação, alguns menos temerosos, ou mais gulosos, voltaram a
comer, e, aos poucos, os demais, também.
A crise se
encerrou quando o mistério se revelou. Tudo não teria passado de
"briga" entre marchantes e criadores de gado para corte. Segundo o
que se dizia, à época, marchante espalhou que determinado rebanho
estaria contaminado por produto que afetaria os homens. Crendo, ou
não, na história, o assunto era grave demais para ser posto de lado.
Por via das dúvidas, melhor sacrificar o prazer da carne à mesa do
que na cama! No ano seguinte (1959), o episódio foi amplamente
debochado no carnaval. Em todos os bailes carnavalescos, a marchinha
mais tocada e cantada era o "Boi da Cara Preta". Sua letra dizia:
"Olha o boi da cara preta... olha o boi da
cara preta... olha o boi da cara preta... olha o boi da cara preta!
Coitado do Waldemar! Tá dando o que falar; comeu carne de boi, falou
fino! E deu para pra se rebolar; que azar!"
De vez em
quando, ao entrarmos no refeitório encontrávamos, nos pratos,
bolinhos de arroz, à base de três ou quatro para cada um. Não em
substituição à carne, mas como extra. Numa dessas vezes, estávamos
na oração preliminar, quando se descobriu, num dos pratos, um
bolinho de forma curiosa: lembrava um rato, em tudo, até no rabinho!
Alguém lhe deu um toque e.... a reação teria sido uníssona
gargalhada, se não fosse o momento e o olhar severo do padre
conselheiro, regente do refeitório que, terminando a oração, acenou
com o "assentem-se", enquanto que ao nosso grupo acenava para que
permanecêssemos de pé. Antes do Deo Gratias (permissão para
conversação) dirigiu-se para nossa mesa. Na qualidade de chefe de
mesa, posicionei-me respeitosamente à sua espera, pois nesses casos
quem respondia era um dos chefes de mesa que, no caso dos
semi-internos, era apenas um, pois o grupo era de onze alunos.
Olhando-me, firmemente, nos olhos, como se tentasse arrancar lá do
fundo o mais tenebroso segredo, perguntou:
- Moço, qual o motivo do riso no momento da
oração? – Enquanto eu apontava o bolinho esquisito, o
colega mais próximo lhe deu um toque de forma que a cara do "rato"
se virou para o Pe "Quaresma" (apelido dado,
secretamente, pelos alunos ao padre Paulo, o conselheiro). Onde
seria a cara do "rato" estava incrustada cabeça de barata com
aqueles olhinhos bem em cima de quem se postava à frente. Num
movimento brusco, o padre levou as duas mãos à boca, para conter
riso estridente, mas, pelos seus olhos, percebemos que ele também
achara a coisa engraçada. Só não queria se destemperar, o que não
ficaria bem em sua posição de chefe de disciplina. Em seguida, deu
sinal a um dos copeiros, pedindo que providenciasse a troca do
prato.
Embora a cozinha
fosse coordenada por freiras, também salesianas, espírito molecão
parecia prevalecer entre as auxiliares, funcionárias leigas. Era
evidente que se tratava de brincadeira bem tramada. O perfeito
formato de rato, que não dispensou nem o rabo, com a cabeça de
barata estrategicamente colocada, não deixava dúvida. E, para
confirmar o caráter brincalhão, o prato fora colocado na mesa dos
semi-internos! Como brincadeira o incidente foi encarado. Ninguém
fez cara de nojo, ou reclamou, e os bolinhos "normais" foram
consumidos sem qualquer problema.