Nos pátios de
recreio, o Colégio Dom Bosco oferecia esportes diversos como, vôlei,
basquete, espiribol, pingue-pongue, e, à parte, como não podia
deixar de ser no país das chuteiras, havia seis campos de futebol.
Ao contrário do recomendado por muitos, o futebol era praticado
imediatamente após almoço e, nas tardes mais longas, também após
jantar. Devido a essa prática constante, o colégio sempre contava
com equipes bem preparadas, prontas para enfrentar adversários de
categoria. Não raras vezes, o colégio recebia visitantes para
enfrentar a equipe interna. Mas havia curiosidade interessante.
Os padres não
permitiam o uso de calções curtos e colados à pele, como era usual à
época. A garotada de pernas de fora, nem pensar! Os calções,
folgados, chegavam quase à altura do joelho. E as equipes visitantes
tinham que se sujeitar a essa norma, vestindo os calções oferecidos
pela casa, pois, caso contrário, a partida não se realizava. E
várias vezes isso aconteceu, pois, se de um lado os padres não
transigiam, do outro não havia submissão. Engraçado é que, hoje, os
calções usados, nos estádios, são praticamente das mesmas dimensões
obrigatórias no Colégio Dom Bosco! Em determinada época, passou pelo
"Dom Bosco" aluno com talento formidável para o desenho. Ele se
sentava à beira do campo e desenhava, na hora, os lances mais
importantes da partida. Terminada a peleja no campo, a atração
seguinte eram seus desenhos, expostos com destaque, em quadro
próprio, no pátio interno.
Algumas
diferenças culturais pontuavam entre o grupo local, semi-interno, e
os internos. O grupo de Cachoeira, fortemente rural, aceitava a
alimentação simples com facilidade, ao contrário de muitos internos,
filhos de famílias abastadas, residentes em apartamentos e
acostumados a pratos mais sofisticados. Para agravar ainda mais a
insatisfação e impedindo a adaptação, muitos desses pais, em visitas
regulares, traziam guloseimas de toda ordem para seus mimados
pimpolhos. Outras diferenças provocavam reações cômicas. Coitado do
professor, em classe, se à vista dos alunos passasse um carro de
bois, meio de transporte de carga muito usual, entre nós, àquela
época! A disciplina era mandada às favas com, praticamente, toda a
classe a se levantar e se aproximar da janela para ver aquela
novidade. Enquanto o veículo não se distanciasse ou saísse do campo
de visão, ninguém retornava aos seus lugares, ficando o professor a
falar para as paredes, se insistisse no prosseguimento da aula.
Entre os
cachoeirenses, o fascínio vinha pelo ar, quando um ou outro pai,
piloto, visitava o filho, ou filhos, em sua máquina voadora. Fazia
voos rasantes, lançava pacotes destinados ao filho e, em seguida,
punha-se a fazer acrobacias com seu teco-teco, verdadeiro espetáculo
para adolescentes cuja imaginação não tinha limites. A grande
maioria dos locais, acostumada ao barulho vindo do alto e à célere
silhueta deles entre nuvens, nunca tinha visto um avião no chão.
Ninguém se vexava de voltar os olhos para cima, movimentar a cabeça
na direção do voo, ou deixar escapar grande ooohhh!!! diante das
manobras audaciosas da máquina voadora. Agora, babar diante de um
carro de bois... para nós era o fim da picada! Depois de tantos
anos, isso nos faz lembrar de político atual, que nunca tinha visto
uma vaca!
No recreio
pós-almoço, nós, semi-internos, nos sentíamos mais livres,
aparentemente, fora do alcance de olhos censuradores.
Despreocupados, saíamos do pátio, alcançando pontos que não faziam
parte dos objetivos de nossa estada na casa. A forte atração eram as
frutas! Um dos caminhos era ao lado da cozinha, separada do restante
da área por pequeno pátio cercado por tela. De lá de dentro vinha o
rap-rap da limpeza das panelas, misturado com ave-marias do terço,
rezado durante o trabalho, para que nenhuma das trabalhadoras caísse
em tentação. Certa vez, um dos alunos voltava com os bolsos cheios
de jabuticabas, quando viu uma garota junto à tela, no pátio da
cozinha. Ele se aproximou, não acreditando muito que ela esperasse,
mas ela o aguardou e aceitou as jabuticabas oferecidas. No dia
seguinte, à mesma hora, lá estavam os dois, novamente. No terceiro
dia, o aluno esperou, mas a garota não apareceu; e no quarto dia,
também. Na semana seguinte muro de dois metros de altura foi erguido
no lugar da tela!
Professores
também aprontavam, de vez em quando. Muitos deles não passavam de
estudantes, em outro patamar, é claro, mas não deixavam de ser.
Recém-formados em Filosofia, aguardavam tempo para a volta ao
seminário, quando então fariam o curso de Teologia. Só depois disso
podiam se tornar padres. Certo dia, estava eu a perambular junto às
fundações de outra capela, a ser construída junto ao prédio, na
lateral vista porque quem chega ao pátio fronteiriço. Essa
construção não passou das imensas valas abertas para se lançar o
alicerce, assim como tantas obras públicas em território tupiniquim!
De repente, ouvi forte estampido, enquanto sentia algo a zunir
próximo à minha cabeça. Em seguida, ouvi um grito de desespero. Na
primeira janela do segundo pavimento estava meu professor de
desenho, clérigo Geraldo Serpa, que acabava de disparar com velho
mosquetão contra o poste junto ao qual eu me encontrava. O mosquetão
teria sido deixado no Colégio Dom Bosco, quando se encerraram as
atividades do Tiro de Guerra, que ali funcionou nos primeiros anos
do estabelecimento.