Embora no
recinto não estivessem todos os senadores, contando entre eles os
que, malandramente, anteciparam o recesso de fim de ano, a cena deve
ter sido hilariante, ainda que revoltantes os fatos nos quais teve
origem. Os senhores senadores, do alto do cargo e cheios de pose,
naturalmente a esperar que a solenidade, dentre as que servem para
dissimular culpas junto à sociedade, transcorresse dentro da rotina
prevista, não contavam com a reação insólita do "homenageado".
Não contavam com
a coragem do Dom Manuel Edmilson da Cruz, bispo emérito de
Limoeiro-CE, cujo nome faço questão de citar, contrariando com
prazer norma adotada de não citar nominalmente protagonistas de
fatos aqui comentados. É que, com o gesto, extrapolou sua própria
individualidade e incorporou o coletivo nacional, realizando o que
brasileiros decentes pensam e gostariam de fazer se coragem, meios,
e oportunidade tivessem. Estão acostumados com críticas feitas de
longe, muitas vezes anônimas, sem ter que encarar, de frente, o
contestador; razão pela qual, alguns, não muitos, que ainda
conservam resquícios de vergonha na cara, devem ter tido vontade de
ali não estar. Viveram momento, que sugere, ao focalizado, mergulho
de ponta cabeça em grande vaso sanitário e acionamento simultâneo da
descarga! Foi a primeira vez - e tomara tomem vergonha para que o
fato não se repita - que alguém foi dizer o que pensa ante suas
fuças, na Casa do Povo, que imaginam ser sua! Houve quem dissesse
não ter sido "adequado" o fato de o bispo ter ido ao Senado para,
ali, recusar a homenagem e protestar solenemente contra as diatribes
de políticos, entre as quais a majoração dos próprios subsídios,
equivocadamente chamados salários. De acordo com opinião da mesma
pessoa, o mais correto teria sido o não comparecimento do bispo,
pois este causou "mal estar" entre os senadores. Pois foi mais
correta a atitude do bispo que, se lá comparecesse, poucos teriam
sabido dos motivos da recusa.
Na contramão do
salário mínimo, cujo reajuste não alcança seis por cento, os
parlamentares, reunidos em sessão rápida e rasteira, tiveram a cara
de pau de elevar em mais de dez vezes o que eles recebem para
representar o povo, mal e "porcamente". A comenda "Direitos Humanos
Dom Helder Câmara", criada pelo próprio Senado para homenagear
personalidades de destaque na promoção e defesa do ser humano, tem
contra si a política incoerente dos parlamentares, que afrontam todo
o povo e cada cidadão/cidadã, em particular, contribuintes de
impostos que deveriam se reverter em benefício da coletividade.
Enquanto reajustam seus próprios subsídios à velocidade do jaguar, o
salário caminha em "ritmo de lesmas", como disse o bispo
"homenageado".
Com o ato da
recusa da comenda e descompostura passada nos políticos, Dom Manuel
Edmilson da Cruz se comportou como verdadeiro representante e
defensor do povo brasileiro. Lavou a alma de milhões cidadãos que, a
cada campanha eleitoral, são enganados com promessas vãs; de milhões
de anciãos, aposentados e pensionistas tratados como estorvo pela
Previdência Social, cujos objetivos foram desvirtuados por
políticos; de milhões de cidadãos, cujas vidas poderiam seriam menos
sofridas, se seus representantes se interessassem realmente pela
sorte do povo.
O episódio da
majoração descarada dos subsídios parlamentares foi mais uma prova
de que políticos pensam mais em si próprios e estão protegidos pelo
próprio sistema corporativo/partidário; por isso mesmo, não merecem
crédito, enquanto todo o arcabouço político não for reformulado. E a
questão da credibilidade não se prende somente ao Brasil, pois
também em países onde há mais seriedade e punição para corruptos,
políticos estão presos por corda enlaçada no pescoço, faltando
apenas quem chute o tamborete, que têm sob os pés.
O conceito de
democracia, no qual a relação política entre governo e nação se faz
por intermédio de partidos, está ultrapassado. Verdadeira democracia
só haverá quando a Política for praticada diretamente pela sociedade
organizada, sem a interveniência de qualquer partido.
Partidos
políticos já fizeram mal demais à humanidade!