PONTO DE VISTA DO BATISTA

Respeito é bom e eles gostam

Explodem-se os ânimos no mundo muçulmano, desde a publicação da imagem em caricatura do profeta Maomé, fundador do Islã. Turbas em protestos acendem a violência nas ruas e discursos inflamados de seus líderes levam a imaginar o que ainda pode acontecer como resultante de um ato, por nós classificado imprudente e, por eles, blasfêmia das maiores.

Esperava-se que, depois do buliçoso caso do livro "Versos Satânicos", cujo autor teve sua morte decretada pelo aiatolá Khomeini em 1989, o ocidente tivesse aprendido a lição. O escritor Salman Rushdie ainda vive porque, contrariando o princípio de que a fatwa (édito religioso) só pode ser revogada pela autoridade que a decretou, o édito o foi depois da morte de Khomeini. Mesmo assim, que se cuide o escritor, porque alguém pode entender que o decreto continua valendo. Observe-se que editores, tradutores e livreiros envolvidos morreram ou sobreviveram a atentados.

De toda a confusão que o episódio provocou, pelo menos a imprensa deveria ter aprendido que, embora livre, há em seara alheia valores a serem respeitados, mesmo que não compreendidos, como não o são por outros muito da cultura de que nos orgulhamos. Liberdade de fofoca, no plano individual, e liberdade de informação, no coletivo, implicam, muitas vezes, na exposição indevida de outrem com desvalorização de sentimentos e dessacralização de seus mais caros valores. É o injusto massacre do todo quando apenas parte merece reparo! Aos olhos do comum entre ocidentais, a reação turbulenta no mundo islâmico parece fora de propósito, exagerada, ou tempestade em copo d’ água, como se costuma dizer, o que só confirma ignorância e falta de consideração com relação a culturas diferentes. Esquecem-se também que a título de condenar o terrorismo, ou criticar a política que o conduz, ninguém tem o direito de insultar todo um povo na figura de seu símbolo sagrado; e isso se fez com os muçulmanos e Maomé. O Islã é a alma de vários povos que abraçam aquela fé, enquanto o terrorismo é desvio por onde transitam alguns indivíduos, independente da crença que possam ter, assim como se desviam políticos de sua missão, não sendo justo, no caso destes últimos, imputar culpa à nação ou à religião por isso. É irônico que, em época de reconhecimento de tantos erros cometidos no passado em nome da fé, chegando-se ao pedido de perdão às partes ofendidas, parte da imprensa ocidental meta os pés pelas mãos, depois de muito contribuir para a distensão político-religiosa no mundo. E ainda pior, que tenha partido de país comedido no trato com outros povos e outras culturas!

Bem afeito a vilipêndios, o ocidental estranha a reação em cadeia porque ainda não se deu conta da diferença entre este e aquele mundo em relação à religião. No ocidente professa-se a fé. Pratica-se a religião como algo à parte, semelhante ao trabalho no emprego ou à convivência nas muitas associações nas quais se reúne. No oriente, notadamente entre muçulmanos, mais que professada, a fé é vivida em toda sua intensidade; é parte integrante de todas as atividades. Onde e quando está o fiel, também a fé se faz presente. Logo, o repúdio à ofensa religiosa se processa no mesmo nível da ofensa de natureza pessoal. Ele respeita os símbolos sagrados de sua fé e do mesmo modo procede com relação a religiões diversas.

Não façamos a outrem o que não queremos nos seja feito!

nbatista@uai.com.br

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