Retaliação e oportunismo
O imbróglio em que se
meteu o governo brasileiro, ao conceder asilo político ao italiano
julgado e condenado em seu país por atos de terrorismo, ainda
renderá muito pano para manga, tudo porque o politicamente correto,
neste país, desde há algum tempo, é defender "direitos" daqueles que
não respeitam nada e nada reconhecem além do que determinam suas
vontades.
Criminosos declarados,
quando presos, recebem a solidariedade de organizações ditas de
defesa dos direitos humanos, mas, ironicamente, suas vítimas nunca
são procuradas por tais organizações, como se esses direitos o
indivíduo passassem a ter somente na prisão. Filhos órfãos, mães
viúvas, famílias inteiras desamparadas porque o banditismo determina
que assim seja, e, falta ao estado a força moral e legal para conter
os criminosos, aos quais não assustam as penas impostas, mesmo
porque ainda podem ser reduzidas através de brechas da lei ou
mediante propinas a corruptos nos corredores dos gabinetes, ou ainda
por meio de fuga com a colaboração dos sistemas de dentro e de fora
das grades. Comunidades inteiras não conhecem outro aparato ao qual
dê obediência que não seja o extralegal, o banditismo organizado com
a máscara de "estado", que assume a posição de "tutor" das
populações aterrorizadas, em troca de fidelidade, testemunho
favorável e apoio nas ações aparentemente comunitárias. É o crime
organizado que dá "segurança" e assiste às necessidades mais
prementes da população refém, em lugar do estado ausente desde há
muito, e, agora escorraçado, quando tenta ocupar seu lugar.
Por essa razão,
dificilmente as populações atribuem autoria de mortes a bandidos,
quando o crime ocorre sem testemunho insuspeito, isto é, de alguém
de fora da comunidade dominada. Quando indagada, responde sempre que
foi a polícia. A polícia erra, e muito, mas daí a ser culpada de
todas as mortes nessas circunstâncias é agressão à inteligência de
nós outros.
O comportamento das
entidades de defesa dos direitos humanos é dúbio. Armam também o
maior escarcéu quando morre bandido nas mãos da polícia. Entretanto,
muitos e bons policiais são assassinados, fria e covardemente por
bandidos, sem que aquelas entidades sequer se manifestem,
esquecendo-se que são seus próprios defensores que se vão, deixando
a família ao desamparo.
Por essa já tradicional
inversão de valores, causa indignação a brasileiros, mas não os
surpreende a posição do governo no caso do cidadão italiano
condenado pela Justiça de seu país. Ao cidadão em questão é dado o
status de refugiado político, quando se sabe ter sido ele julgado e
condenado pela prática de quatro assassinatos como forma de
terrorismo, na tentativa de derrubar governo legítimo de seu país.
Alega inocência, mas inocente não foge, ou, pelo menos não em
definitivo. Inocente luta para provar que é inocente. Ele teve
oportunidade de se defender diante do tribunal italiano, mas
preferiu abrigar-se no estrangeiro enquanto era julgado à revelia, e
agora reclama. Esse cidadão tem contas a ajustar com a Justiça
italiana e é na Itália que ele deveria estar, e não no Brasil. Os
crimes de que é acusado são comuns, tendo o terrorismo como
agravante, e não de natureza política.
Em meio a toda essa
polêmica, fabricante de roupas femininas lança na Itália campanha de
marketing, por meio de "outdoors", em que mulheres são agredidas, na
praia, por policiais de determinado batalhão da Polícia Militar do
Rio de Janeiro. Além da violência física em si, na propaganda há
também desrespeito à condição feminina. Analisando o momento
tumultuoso na relação entre o Brasil e Itália, coincidência é o mais
difícil de aceitar, pois assim como grande parte da população
brasileira não concorda com o asilo político concedido, na sociedade
italiana há também indignação contra a mesma decisão.
Retaliação e golpe
oportunista, visando mais vendas da confecção, é o que mais parece,
pois ofensa em campanha publicitária é desnecessária e descabida,
sobretudo contra instituições oficiais de país estrangeiro. E onde
está a moral do governo brasileiro para cobrar respeito?