PONTO DE VISTA DO BATISTA

 Ridículo em moda

Por ser segunda-feira após feriadão, a repartição estava apinhada e a fila prometia longa permanência do público, enquanto se aguardava o chamamento feito pelo único atendente, ainda meio travado pela ociosidade dos últimos dias. Lá fora o frio incomodava, mas naquele recinto, abafado e superlotado, incômodo eram os agasalhos. É bom esclarecer que a fila não era a do tipo tradicional, um atrás do outro, a formar um minhocão (por isso mesmo, chamada bicha pelos portugueses) a se contorcer para ocupar todo o espaço reservado à espera. Seguindo tendências de amenização de problemas, quando difícil sua solução, fila agora se torna chique com a introdução da cadeira. Aquela sentença "espere sentado!", significando que nunca a pessoa terá seu desejo satisfeito, foi bem aproveitada. Já se pode esperar sentado e não ficar no "ora veja"! Só falta agora garçonete a servir aguinha, cafezinho e suquinho!

O burburinho era grande, muitas histórias para contar do ócio recente, especialmente ali, naquele momento, onde e quando imperava a maioria feminina. De repente - e já demorava - ouviu-se o toque de um desses realejos, produto da moderna tecnologia. As pessoas se entreolharam, como se a perguntar "de quem é?", e ao mesmo tempo responder "meu é que não!". Aquela coisa prosseguiu com sua impertinência, a repetir musiquinha estridente e chata. Foi quando se percebeu a vistosa morena de cabelos pretos e longos, sentada na primeira fila, última cadeira junto à parede.

Com a cabeça pendente para o lado da parede, ela tirava um cochilo, alheia a tudo. Entretanto, não foi necessária a intervenção, ameaçada por algumas mais apressadas, pois ela se desprendeu dos braços de Morfeu, recompôs-se e, metendo a mão na bolsa, correu o olhar por toda a sala e explicou o (com a devida licença do Nelson Rodrigues) óbvio ululante: é o meu ce-lu-lar! Sem querer, e talvez querendo, ela conseguiu chamar sobre si toda a atenção, para ouvir a metade do diálogo então estabelecido; o celular numa das mãos, enquanto a outra a manipulava o cabelo, balançando-o em movimentos bruscos da cabeça.

– Olá querida, há quanto tempo a gente não papeia, né? Cheguei hoje da praia e ainda nem dormi (tremenda mentira pois, ainda há pouco, roncava) Você viajou? - (..........) – Não? Ah! que pena! Tem que aproveitar essas oportunidades, menina! Fiquei quatro dias de papo pro ar! – (..........) – Não, não fui sozinha! Levei a Rita e ela adorou. – (..........) – Você ainda não conhece a Rita? Mas, eu preciso levá-la aí para você conhecer. – (..........) – Ela é muito sapeca! - três moças na última fila de cadeiras começaram a rir, baixinho. Pelo que deixaram transparecer, uma delas se chamava Rita – E ela apronta cada uma! Na praia, ela não me deu sossego. Você precisava ver. - (..........) – Ainda outro dia, viu a escada que a faxineira usava e num descuido da moça, ela alcançou o alto do guarda-roupa. E pra descer, como desce? Tomei a maior canseira. - (..........) – A essa altura, a Rita da última fila tinha virado alvo de brincadeiras de suas amigas e pessoas mais próximas Sabe que quase despenquei da escada? E a Rita ainda ficou a fazer-me festa! - (..........). A Rita, foco daquele trololó, devia ser mesmo uma garotinha levada. Por isso, toda a sala estava sintonizada na conversa, num misto de curiosidade e expectativa em torno de gancho para chacotas! E o papo continuou: - Vou levar a minha Rita para você conhecer e tenho certeza que você vai gostar dela. - (..........) – Não. Já, já, não! Espere só alguns dias. Vou lhe dizer o porquê – (..........) – Aqui, a moça do celular baixou um pouco a voz, mas não o suficiente para deixar de ser ouvida É que está com a genitália muito inchada! Ela entrou no cio!

No exato momento daquela revelação, duas senhoras da convencionada terceira idade entraram e uma delas, olhando para mulher do celular, exclamou: a sirigaita, irmã dela, está mesmo na Itália! Os risos contidos explodiram, as três amigas da última fila saíram depressa e a conversa chegou ao fim, mas a mulher nem se deu conta do que provocara. A "Rita" era só uma cadelinha. Coisas da era do celular!

nbatista@uai.com.br

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