PONTO DE VISTA DO BATISTA

Roubaram também o Natal

Com esta edição encerra-se o ano para o jornal e, consequentemente, para esta coluna, cujo retorno à apreciação do leitor só se dará sob a vigência de novo calendário, depois de alguns dias de férias, é claro, porque ninguém é de ferro. Estamos em clima de Natal e tudo converge para ele, mas natal de quem?

Quem já virou a lombada dos sessenta e viveu outros natais entende melhor o sentido da pergunta, porque deve se lembrar como era aguardado, preparado e celebrado o Natal, data especial para a cristandade por se referir ao nascimento de Jesus. Embora o lado material fosse também contemplado como compensação pelos sacrifícios auto-impostos por meio do jejum e abstinência de carne, durante a vigência do advento, período que compreende as quatro semanas precedentes ao Natal, o que predominava era o verdadeiro sentido místico e religioso. O presépio era tarefa a ocupar toda a família, a começar dos mais jovens incluindo-se crianças, que se embrenhavam no mato à procura de coisas, oferecidas pela natureza e passíveis de aproveitamento na montagem daquela alegoria natalina. Dentre diversos materiais, sobressaia-se o musgo, abundante no período chuvoso. Enquanto olhos e mãos se ocupavam disso, ajudando adultos, a imaginação infantil se voltava para o Papai Noel, ainda não corporificado na figura ridícula criada pela propaganda, incontinente em excessos que beiram a indução ao crime. Crianças de então tinham Papai Noel como ser misterioso apenas na imaginação, portador de brinquedos na mágica noite de Natal, e nem imaginavam que um dia ele se transformaria num ladrão em comercial de operadora de telefonia celular, como aconteceu em vésperas do Natal de 2004. Também a árvore natalina não era muito usada, destacando-se o presépio como a principal marca do Natal no ambiente familiar, deixando de ser a única porque o preparo de doces e guloseimas, próprias desta época, tomava o tempo das donas de casa em boa parte do mês de dezembro. Os doces constituíam o toque festivo da consoada, ceia da noite de Natal cujo prato principal era o peixe, especialmente, o bacalhau. E tudo culminava com a "Missa do Galo", exatamente à meia-noite (sem horário de verão); depois da reunião da família para a ceia, a reunião da comunidade para celebrar o nascimento do Menino Jesus.

À tarde do dia vinte e quatro, quando ainda não havia troca de presentes como obrigação social, o que prevalecia era a troca de pratos de doces. Por cima de cercas e muros, ou de porta em porta, as famílias se presenteavam com o produto da culinária natalina, ainda não profanada com excesso de carnes. E bebida alcoólica era só o vinho, em dose moderada, para acompanhar a ceia. A festa era da família e, por extensão, da comunidade! Ainda não a tinham transformado em termômetro da indústria e do consumo, bem como em expressão da hipocrisia um pouco antes da realidade crua da puxada do tapete no emprego, ou simplesmente ocasião de comilança, regada a muito álcool.

Coincidentemente, do mundo virtual chega-me cartão natalino, em tudo semelhante a muitos desses adquiridos em papelaria. Fico na dúvida se o autor faz crítica à profanação da festa ou dela faz deboche ao dotá-lo de recursos, que permitem ao destinatário substituir todas as recatadas figuras por outras que sugerem orgia, sexo e bebedeira. Entretanto, sob uma ou outra intenção, o cartão retrata a pura realidade, pois da festa original só resta o bordão: Feliz Natal!

nbatista@uai.com.br

TEXTOS                                                                                         PRÓXIMO

 
 

             HOME            

lique aqui  para adquirircom foto de Ouro Preto

Adquira, leia, comente e divulgue o livro BANDA DE MÚSICA, a "Alma da Comunidade"    

Home***Quem somos*** cidade***Hotéis/pousadas***Distritos***Atualidades***Cultura***Notícias

Pau na moleira***Textos***Curiosidades***Manual de viagem***Links úteis***Pesquisa***Negócios***Fale conosco