PONTO DE VISTA DO BATISTA

Sanguessuga e Hidra, o monstro oficial

O noticiário tem informado sobre o desmantelamento de grande quadrilha contrabandista de cigarros, pneus, eletro-eletrônicos e outros produtos oriundos do Paraguai, que vinha atuando em quatro estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Quase cem mandados de prisão e cerca de cento e quarenta mandados de busca e apreensão estavam nas mãos da Polícia Federal. As investigações, desenvolvidas ao longo de um ano, revelaram a existência de uma organização dotada de estrutura semelhante ao de grandes empresas do mundo legal. É impressionante como o mundo do crime se organiza, se expande e se infiltra nos órgãos do Estado, tornando este cada vez mais vulnerável. À falta de reação à altura com base na Lei, chegará o momento em que as organizações criminosas engolfarão o estado legal, e aí teremos o salve-se quem puder.

Isso me faz rebobinar a fita da memória e "rever" a curiosa camisa de um homem, bastante conhecido meu. Sua profissão exigia longas caminhadas pelo mato, contato com espinheiros, passagens através de cercas de arame farpado, o que fazia de suas roupas uns trapos em pouco tempo. Não se descartavam, então, roupas só por causa de alguns rasgões. Apelava-se para o remendo, preferencialmente com tecido e padrão originais, mas não sendo possível, com qualquer pano a dona de casa aplicava uma "janelinha" à roupa rasgada. O tal cidadão tinha uma vistosa camisa que, depois de empregada no batente, passou a receber sucessivos remendos até que, um dia, do tecido original só restava um quadrado nas costas. Assim ficará o Brasil, se governo e sociedade organizada não reagirem e assumirem o dever de colocar as coisas nos devidos lugares.

Voltando à questão da quadrilha, a operação deflagrada pela Polícia Federal recebeu o nome de Hidra, numa alusão ao monstro mitológico, serpente cujas cabeças - em número de sete- renasciam ao serem decepadas isoladamente. Não me parece boa escolha, pois as forças de segurança estão longe de ser o bicho-papão, que pretendem ser aos olhos do crime; ao contrário, pode parecer aos criminosos o reconhecimento de que suas organizações têm mais poder que o próprio Estado. E na prática realmente têm, pois dificilmente criminosos, quando apanhados nas malhas da lei, recebem penas com rigor proporcional à gravidade do delito. No trato com o cidadão de bem, eventualmente em situação irregular, a Lei é aplicada sem dó, ao contrário do bandido que encontra todas as facilidades para minorar a pena e deixar de pagar por prejuízos causados. Quando o mutuário do Sistema Financeiro da Habitação, por exemplo, perde a capacidade de pagar, o imóvel adquirido vai junto; mas fraudador, o ladrão do dinheiro público, o criminoso do colarinho branco, raramente devolve o que tomou, gastou ou aplicou como seu.

E "nova" célula corrupta foi detectada dentro da chamada Previdência Social, a patifaria oficial, esta sim, verdadeira Hidra, cujos focos de corrupção não se extinguem, pois a cada desmantelamento efetuado, outros surgem em seu lugar. O monstro é, de longe, verdadeira sanguessuga a exaurir forças da sociedade produtiva para alimentar a corrupção. Com a prisão da presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do INSS, cuja gangue é responsável por um rombo anunciado de três bilhões de reais, mas que pode chegar a algo perto de nove bilhões, a antiga pilantra e heroína dos velhacos fica no chinelo; ela que se apropriou de algo em torno de quatrocentos e cinquenta milhões de reais.

Enquanto isso, aposentados e pensionistas são nivelados pelo piso salarial, embora tenham contribuído para garantir proximidade do rendimento quando na ativa. E contribuintes na ativa enfrentam a morosidade do sistema ante a necessidade de recorrer aos seus direitos junto à Previdência Social. Ainda não surgiu o Hércules capaz de cortar, de um só golpe, as múltiplas cabeças dessa Hidra!

nbatista@uai.com.br

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