PONTO DE VISTA DO BATISTA

Sanguessugas da miséria

Diz provérbio que "depois da tempestade vem a bonança", quando não vem outra tempestade - acrescenta o pessimista - mas, no Brasil, vêm também a corrupção, a safadeza e a desumanidade, encarnadas no desvio da ajuda humanitária oriunda da solidariedade do restante da população, desejosa de contribuir para minorar o sofrimento dos atingidos por catástrofes. Aconteceu a catástrofe e feita a mobilização popular para ajuda aos atingidos, pode-se esperar que mentes e mãos criminosas ainda atuarão, para fazer daquela circunstância, desfavorável a tantas pessoas, uma oportunidade em proveito próprio.

Assim como em todas as tragédias que, anualmente, acontecem em qualquer parte do território nacional, especialmente, no período chuvoso, de Alagoas vem a notícia de desvio de doações, que deveriam beneficiar população duramente atingida por chuvas torrenciais, causadoras de enchentes, deslizamento de rochas, desabamento de casas e mesmo destruição parcial de cidades. Como consequência da série de desastres naturais, pessoas morreram e milhares ficaram ao desabrigo.

Enche-se de indignação quem toma conhecimento da conduta criminosa de pessoas, que fazem prolongar o sofrimento do semelhante, já fragilizado, por circunstâncias desfavoráveis. E mais indignado fica quem colabora com doações, ou no trabalho da coleta, transporte, distribuição, ao saber que parte do arrecadado não chega aos destinatários, porque rapinantes se interpõem entre os que doam e os que deveriam receber. E o pior é que, se descoberto o safado ou safados, nada lhes acontece a não ser pena mínima como se furto comum fosse. E não é, porque os agravantes do furto estão no que representa o objeto do furto para a vítima deste. Para quem perdeu ou quase tudo perdeu, perder mais uma vez e por obra de furto descarado é como se sentir empurrado para o abismo do abandono humano.

Logo, desvios ou furtos de mercadoria destinada a vítimas de tragédias coletivas deveriam ser penalizados com mais rigor, além da devolução ou reposição do material desviado. Se funcionário de âmbito municipal, estadual ou federal, o rapinante deveria ser banido a bem do serviço público, sem prejuízo de processo a responder na Justiça. Não pode haver contemplação com esse tipo de gente!

Infelizmente, no Brasil, até parece haver plantão desses bandidos à espreita de oportunidades, pois desvios de donativos ocorrem em todas as situações de tragédia, especialmente as causadas por forças naturais. O povo, em sua generosidade, se mobiliza, sob lideranças religiosas, associativas de todos os gêneros ou de forma espontânea, para levar um pouco de cada um aos que, por efeito de catástrofes, ficam carentes de tudo! Mas, a contrariar a solidariedade manifestada existem as ações predatórias desse verdadeiro câncer social, sanguessugas, exploradores da miséria!

A Lei reconhece o furto famélico, isto é, o furto de alimento para o uso próprio ou da família em situações extremas de necessidade, como recurso de defesa da vida. Nesses casos, a Lei prevê a não aplicação da pena correspondente. Mas furto a famintos, socialmente fragilizados, ou quase, é justamente o oposto; por isso o braço da Lei deveria descer com mais força sobre tais pilantras. Na verdade, saem livres e prontos para agir na enchente seguinte!

Por descontinuidade no repasse de pensão alimentar, mesmo por infortúnio de quem detém a obrigação, punem-se até avós do alimentando, mas, os que tiram, para seu proveito, o pão das bocas famintas nada sofrem para compensar a desumanidade cometida. Na área do meio ambiente, o humilde morador da zonal rural pode ir para a cadeia se, ao recorrer à farmacopeia caseira, extrai casca de árvore, ainda que em quantidade mínima, para o preparo de chá com que curar suas ziquiziras. Mas, e os que agridem de fato a natureza, com desmatamento por corte ou por incêndio, poluição dos recursos hídricos, poluição atmosférica e extinção da fauna com graves prejuízos para a vida humana ? Para esses há longos processos dos quais a maioria se safa, se possível, com algum lucro.

Pessoas que se valem de circunstâncias, para deixar pessoas pobres mais pobres, prosseguem em sua insânia sem que algo ou alguém os refreie. E algumas, se não estão lá, ainda se valem da mesma situação para alcançar postos na vida pública.

nbatista@uai.com.br

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