Segurança de brincadeira
Longe vai o tempo em que o
cidadão pouco tinha que se preocupar com a segurança na convivência
com seus semelhantes, pois este qualificativo não se prendia tão
somente à origem como espécie; mais semelhantes eram os indivíduos
na índole, com poucas exceções que a lei alcançava e punia
exemplarmente. Longe do burburinho de cidades maiores, policial era
figura destituída de função prática e quem saía dos eixos perdia
completamente seu lugar entre os confiáveis dentro da comunidade,
mesmo redimido do seu erro. Para escapar à lupa discriminatória, a
solução era a busca de outras paragens, bem longe do ninho, onde o
nome ficava manchado para sempre. E quem praticava crime de
apropriação indébita contra o patrimônio, público ou privado, não
mais se livrava da pecha de "ladrão", pois então "autor" era só quem
produzia boas obras. A violência, rara e localizada, tinha causa e
agentes conhecidos. Portas ficavam abertas do nascer ao por do sol,
objetos encontrados nas proximidades de uma casa eram entregues aos
seus moradores, e se a estes não pertencia o achado, o verdadeiro
dono era aguardado.
Na manutenção desse
equilíbrio eram firmes os pilares da família, da escola e da
religião. Do berço, sob a autoridade incontestável dos pais, a
educação tinha prosseguimento na escola e se complementava na
igreja, moldando o indivíduo no discernimento, faculdade
indispensável na formação do bom cidadão. Muito maior era a legião
de iletrados, pois não todos eram mandados à escola, mas a noção do
certo e do errado, o respeito aos direitos do semelhante, incutidos
desde cedo, robusteciam o indivíduo como ser, sempre consciente de
que o ter só tem validade sob o amparo da ética e da honestidade.
Por si só, pobreza não era virtude e riqueza não era pecado!
Derrubada a autoridade
paterna, reduzido o poder dentro da escola e afrouxadas as rédeas da
religião, inverteram-se valores, subverteram-se conceitos e a
sociedade perdeu a força que lhe dava autocontrole, abrindo-se então
espaço para mais poder policial. Mas - paradoxo dos paradoxos! – à
medida que crescia a demanda por segurança pública com a
criminalidade em ascensão, o Estado, já contaminado pela corrupção
resultante da sociedade enfraquecida, perdia espaço na área.
Primeiro o banditismo dominou favelas nas grandes cidades, seduzindo
populações com serviços sonegados pelo poder público e as aliciando
para o crime, por meio da corrupção de jovens abandonados à própria
sorte.
E certamente dominará
pequenos núcleos urbanos como Cachoeira do Campo e comunidades
vizinhas, se o poder público não assumir de fato suas
responsabilidades, passando da presença quase virtual, com reduzido
contingente, sem telefone, quase sempre sem viatura, insuficiente
para atender ocorrências corriqueiras.
Comunicação e mobilidade
imediatas são imprescindíveis para que a força policial tenha
controle sobre determinada região e não se admite seja dotada de
menores recursos que os normalmente usados por malfeitores em sua
sanha contra a sociedade. Como pólo desta região, que abriga cerca
de quinze mil habitantes do município de Ouro Preto, Cachoeira do
Campo deveria contar com maior efetivo e melhor estrutura da Polícia
Militar ao lado de delegacia da Polícia Civil.
Não dá mais para recorrer
a quem não pode socorrer no momento necessário e nem aguardar várias
horas para entrar com representação na delegacia de Ouro Preto, de
onde providências não vêm. Tamo
na mão de calango!