PONTO DE VISTA DO BATISTA

Semana Maior

É a Semana Maior! Maior porque nela se concentra todo o padecimento assumido por Jesus, o Cristo, em nome da humanidade, que se achava (ou se acha?) em débito para com Deus. Assim como sete foram os da Criação, sete são os dias de expiação; naquela, o Homem surgindo pelo sopro divino em suas narinas, nesta morrendo e ressuscitando por meio do amor do Filho de Deus!

Desde a zero hora da quarta-feira de cinzas, quarenta dias (quaresma) foram de preparação dos fiéis para viver as celebrações iniciadas no Domingo de Ramos. Saídos da festa da carne (carnaval), realizada nas trevas do espírito (ausência da lua no céu), mergulharam na penitência com altares cobertos por roxo e comedimentos no viver, redução na ingestão de alimentos (jejum e abstinência de carne) e no lazer (ausência da dança e da música mais ligeira), tudo isso avançando além da quaresma (quarenta dias), na Semana Santa, até alcançar a luz da Ressurreição (na fase da lua cheia).

Cachoeira do Campo, comunidade pobre e pequena, também celebra os ofícios completos da Semana Santa, embora bienalmente, porque seu peso financeiro não permite a realização todos os anos, mas os atos, internos e externos, se fazem no mesmo nível das comunidades mais ricas e ditas evoluídas. Ruas esburacadas, sem calçamento, poeirentas ou lamacentas, conforme caprichos da natureza, recebem atenção especial da Prefeitura de Ouro Preto. Assim é que, de dois em dois anos, as ruas são roçadas, especialmente as principais, para que passem as procissões. Alguns trechos, como o final da Rua Santo Antônio, oferecem oportunidade de se fazer lenha para o fogão, tal é a fartura do elemento verde que estorva a circulação do caminhante. Na sexta-feira desta semana, em casa, vassoura não sai do canto, café não se pila e filho traquinas escapa ao "trato"; do rádio o som é cantochão ou clássico; nas ruas, automóvel não buzina (onde está ele?) e mulher não encanta.

Desde as nove horas desta sexta maior, a igreja-matriz se mantém cheia de fiéis, música adequada do coro e orquestra ressoa na nave, enquanto se desenrolam ritos próprios do dia. Padres não faltam; convidados especiais vêm se juntar aos salesianos em volta do pároco, para que o brilho não seja menor que em outros locais. Mas, tão complexos são os rituais, que mesmo eles (os padres) não os conhecem de pronto! Aqui, como no teatro, não falta o ponto (Geraldo "Nabuco") que sopra e sinaliza, de forma sutil, falas e procedimentos a seguir, na Missa dos Pré-santificados, Adoração da Cruz e sermão das Sete Palavras. Se a igreja está lotada, não menos estão as acanhadas ruas onde, em barracas improvisadas, se instalou comércio temporário, que inclui atendimento à necessidade de alimentar, emergencialmente, tanta gente. É que essa massa humana, vinda de tantos lugares, deve permanecer até a noite quando então se desenrolarão os atos finais da sexta-feira da Paixão com o sermão do Descendimento da Cruz, seguido da Procissão do Enterro.

Este seria o relato resumido da Semana Santa e um pouco do tudo que a envolvia, há cinqüenta anos, quando maior respeito havia pelo sagrado, de forma ingênua muitas vezes, porém sincera e entrelaçada com a cultura local; quando a quaresma, povoada de superstições engendradas pela imaginação popular, era contada da quarta-feira de cinzas ao Domingo de Ramos (exatos quarenta dias) e não até o Domingo de Páscoa, como asseveram alguns padres e registram os dicionários (aritmética deve funcionar aqui também); quando a Páscoa era respeitada como a maior festa do catolicismo e ainda não tida como festival de chocolate e mais um dia comilança e de troca de presentes.

É claro que aqui se considerou apenas o envoltório e não o significado maior da Semana Santa, mas ele representa muito para a memória do povo, na agregação de valores de natureza cultural e moral.

nbatista@uai.com.br

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