"Severinadas" e outras
coisitas mais
Embora a propaganda
governamental diga que a situação do país melhorou, o cidadão comum
sente na pele tantas carências, que não consegue dizer qual delas
mais o aflige. O jovem se vê numa encruzilhada de incertezas
representadas por conflitos de valores morais, falta de
perspectivas, ensino de baixa qualidade, e outros vazios onde se
espera encontrar ajuda, orientação e resposta aos seus anseios. O
adulto, antes das pressões diárias em forma de despesas materiais,
divide-se entre maior presença no grupo familiar e o atendimento de
cobranças externas, como destacar-se no seu grupo, aprimorar-se no
trabalho, ganhar mais dinheiro e poder gastar. Seduzido pela
possibilidade do TER volta-se para a segunda opção e assim coloca o
filho na situação, acima descrita, do jovem na encruzilhada. O
velho, ou idoso, como queira, pode até sonhar com a liberdade de
fazer o que queira, mas tempo não tem porque dele continua
prisioneiro, para ganhar o sustento dissimuladamente roubado ao
longo da vida, dita útil, de trabalho.
No começo, meio e fim, a
vida não tem sido levada em conta, por si só e seus valores
intrínsecos na condução da política, ficando agentes desta na mera
discussão periférica das necessidades, pois suas atenções estão
voltadas para interesses pessoais, desmedidos e muitas vezes
inconfessáveis. Daí o grande abandono à qual está relegada a
população, embora cada vez mais lhe seja aumentada a carga de
tributos. O que acontece ultimamente na Câmara dos Deputados é tudo
o que a sociedade não espera de seus representantes e uma vergonha
para o país no concerto das nações civilizadas. O corporativismo,
até então mais ou menos velado, em torno do subsídio dos
parlamentares, virou escândalo nacional pelo ímpeto do novo
presidente da Câmara Federal, notório por sua avidez pecuniária.
Frustrado na tentativa de aumentar os subsídios de forma direta, ele
o fez pelas portas dos fundos, aumentando a verba de gabinete, não
se importando nem mesmo com a opinião pública. Como líder da ala
menos visível entre seus pares, o "xiquexique" ou "cheque-cheque",
agora presidente da Câmara, põe a nu a verdadeira razão de cada um
ali estar, vencido o caminho, nem sempre muito claro, até às urnas.
Até da chantagem se vale o presidente do Legislativo para tentar
nomear ministro um correligionário!
Às favas deve ir o povo
que, de fato, é mandado também, à sombra do Redentor, pela atitude
do alcaide em campanha extemporânea na pretensão de ascender ao
Planalto. Sem defesa da parte do Estado, cariocas tomados de assalto
pela bandidagem dos tóxicos e, pela politicagem irresponsável na
área da saúde, sentem um pouco de guerra no tratamento de males
físicos. Em Brasília, o achincalhe ao mandato popular, e no Rio,
some-se à mesma avacalhação o desprezo ao contribuinte de impostos e
ao direito de acesso da população aos serviços de saúde.
Sem culpa na consciência
mal formada e livres de qualquer punição, tais políticos talvez
sejam o espelho em que se miram os dois brasileiros presos e
condenados à morte, na Indonésia, por tráfico de drogas. Apesar do
rigor da lei mulçumana, que lá impera, os dois "curtem" as últimas
mordomias proporcionadas pela justiça local, como se estivessem no
Brasil, na iminência de serem libertados por alguma brecha da lei ou
protecionismo político. Além do pedido de clemência, previsto na lei
indonésia e já exercido pelo presidente brasileiro, confiam eles nos
pistolões que aqui os livrariam do cumprimento de qualquer pena.
Conquanto o desejável
fosse não mais existir a pena capital em qualquer parte do mundo,
espera-se que a lei se cumpra. Dura Lex, sed Lex
– a Lei é dura, mas é Lei.