Sexta-feira Santa de sangue
Sexta-feira Santa, que já foi
dia de jejum e abstinência, muito recato e nenhum barulho além das
matracas, sugerindo às emissoras de rádio a substituição da
programação por música clássica, hoje pouco difere de outra
qualquer, mesmo nas cidades onde religiosidade e tradição falam mais
alto. Longe no tempo ficou o costume de emudecer as buzinas dos
automóveis e apitos das locomotivas; evitar até mesmo o trabalho
doméstico, que não fosse o preparo da frugal refeição, deixando
também para outro dia qualquer reprimenda e questionamentos que
pudessem levar a discussões acaloradas. Enfim, Sexta-feira Santa era,
em todos os sentidos, o dia da não-agressão ao corpo com esforço
físico, aos ouvidos com barulho e sons profanos, aos olhos com cenas
degradantes, à sensibilidade alheia com o insulto e a maledicência.
Era o dia da pausa nas atenções ao exterior para uma rápida
introspecção e exame de consciência, tendo como foco a tragédia do
Calvário, na qual o Mestre pagou com a morte pelo crime de amar a
humanidade. A violência da qual Ele foi vítima era então reprimida de
modo simbólico com adoção da brandura no comportamento, nem que fosse
por um dia.
Pressionado pelas
contingências da vida moderna, que não condescende e impõe o
imediatismo, o indivíduo já não responde ao apelo do recolhimento,
fixando-se tão somente nas exteriorizações do evento que marca a
Semana Maior. E, infelizmente, nem isso se consegue onde a violência
assumiu condição crônica, à qual se amolda a qualidade de vida de
populações inteiras, nos arredores das grandes cidades. A última
Sexta-feira Santa assumiu feições de dia maldito para grande parte da
população do Rio de Janeiro, quando quadrilhas entenderam de disputar,
pelas armas, o vil mercado das drogas, num ostensivo desafio ao estado
constituído e desprezo por milhares de vidas inocentes, que ficaram à
mercê das balas. Como dois exércitos-fora-da-lei, travaram verdadeiras
batalhas, que se repetiram ao longo do fim de semana, pelo controle do
tráfico na maior favela carioca. Fizeram o que quiseram e a ação do
Estado, por meio de sua força policial, foi inócua: dez pessoas
morreram e muitas famílias se viram expulsas de seus domicílios.
Agigantam-se a operosidade e a
violência do crime organizado no Brasil desde que, na Itália, o
governo cortou da máfia o poder que tinha naquele país. Sabendo-se que
tais organizações não desaparecem assim, simplesmente, o Brasil era e
é o país que melhores condições oferece, na opção de
transferência de suas operações: altos índices de corrupção,
governos fracos, leis caducas e complacentes com o crime, impunidade,
sociedade em decadência moral e má distribuição de renda. Desde que
a máfia teve suas operações dificultadas na Itália, deveria o Estado
brasileiro ter se armado de condições para fechar-lhe as portas, mas
nada se fez. Diante da escalada da violência o que se viu foram
discussões inúteis e muita conversa fiada, tanto em círculos do
governo quanto nos da então oposição, que apontavam a miséria e o
desemprego como causas únicas: como se o miserável tivesse dinheiro
para comprar armas e o trabalhador se transformasse, automaticamente, em
bandido sob a condição de desempregado. A cada gesto mais ousado dos
bandidos, planos, posteriormente revelados como lorotas governamentais,
foram anunciados para dar combate ao crime organizado. Mas, ao
contrário, o que se vê são as organizações criminosas a ganhar mais
estrutura face a face com o estado constituído. A oposição de
outrora, hoje sob a pele de governo, continua na trilha do antecessor:
muito discurso e nenhuma ação contra a bandidagem!
E, muro deveria ser
construído em volta de quem o sugere para isolar comunidades!