Recentes estudos revelam
que aumenta o número de solteiros de ambos os sexos, acima dos vinte
anos, que continua a morar com os pais, deixando para mais tarde o
abandono do ninho de origem e constituição de sua própria família.
Percebe-se, nas considerações sobre o estudo, velada crítica contra
esse comportamento, como se movido por puro comodismo configurado
por cama, comida e roupa lavada, além, é claro, do carinho
paterno/materno. Os próprios entrevistados revelam estar a preparar
a segurança financeira para, só depois, sair de sob as asas dos
pais.
Entretanto há que se
considerarem outros fatores, não investigados nos estudos, talvez
causas menos visíveis, porém com mais influência no novo
comportamento, quiçá meia volta no sentido da família mais agregada;
o que poderia contribuir para a melhora do arcabouço do núcleo
familiar, bastante abalado nos últimos cinqüenta anos.
Depois de longo império da
família solidária, três ou até quatro gerações em volta do casal
patriarca/matriarca, experimentou-se a dispersão, em busca de mais
liberdade individual na realização econômico-financeira. A
experiência valeu quanto à busca do sucesso econômico/financeiro
enquanto o indivíduo não percebeu que a liberdade conquistada era
muito frágil em vista da insegurança cada vez maior, longe do apoio
moral e do afeto só encontrados no seio da família. A liberdade é
boa e todos a merecem, mas ela não impõe redução dos vínculos
familiares a contatos esporádicos, especialmente se considerada a
necessidade que cada pessoa tem, em dados momentos, da proximidade
dos do seu sangue. Como ser social, o humano tem como base de suas
realizações a família, ainda que haja, entre seus membros,
divergências; divergências que dificilmente são maiores que as
encontradas ao longe, nos muitos momentos de batalha pelo sucesso.
A nova tendência detectada
nas pesquisas é bom sinal para o futuro da família, sobretudo agora
que ela se reduz quanto ao número de filhos, ocasionando a solidão
do casal cada vez mais cedo, por força da dispersão daqueles ainda
na fase solteira. Que não se confunda, no entanto, o comportamento
dos filhos, que retardam o voo solo, mas se somam na
responsabilidade pelas despesas, com aqueles que também ficam, porém
pela razão de que não querem se manter por si próprios, se podem ser
sanguessugas dos próprios pais. Os primeiros partilham afeto, os
segundos, desconfianças e discórdias.
Estas considerações se
escoram, de certa forma, no que demonstra a novela "Caminho das
Índias", em relação à família indiana. Afora a discriminação por
meio das castas, superstições próprias da cultura - estranhas para
nós que cultivamos outras - e outros exageros, ainda segundo o nosso
julgamento, a estrutura familiar é a garantia da sociedade indiana
que, mesmo marcada por fortes contrastes entre opulência e miséria
absoluta, alto saber científico e analfabetismo, apresenta baixos
índices de criminalidade dentro de uma população de mais de um
bilhão de habitantes. A vida do indivíduo gira em torno da família e
é construída em função dela.
A personagem Camila,
típica e frívola adolescente, em constante confronto com a mãe para
não perder oportunidades junto ao pai, parceiro em pilantragens da
segunda mulher, embarcou em casamento dentro de família indiana.
Apaixonada pelo rico indiano, seduzida pelo luxo, luta agora com os
rigores dos costumes domésticos, chamando sobre si a ira dos mais
velhos e a chacota dos mais novos da casa. Assumiu com facilidade o
uso de jóias e das exuberantes vestes, mas seu relacionamento se faz
aos tropeços e esbarrões com os novos familiares, pois a
liberalidade ocidental ali não tem vez. Ao contrário da rebeldia
junto à família de origem, na nova vida, ela tem se comportado com
humildade, mas até quando? Passados os primeiros momentos da
novidade, ela terá que encarar a realidade, da qual nossa cultura
não tem nem dez por cento em disciplina, respeito e obediência.