Sistema político no fim da
linha
Tal qual a cidade de Nova
Orleans, mergulhada em águas fétidas, após a passagem catastrófica
do "Katrina", o sistema político brasileiro se afunda no pântano da
corrupção. Lá, excrementos refluem impulsionados por forças naturais
e externas; cá, eles se produzem com ações políticas, diretamente da
cabeça de pessoas nas quais o povo depositou confiança de bem
representá-lo nos assuntos de gerência da coisa pública. Lá houve
perda de vidas, é verdade, insubstituíveis em seus respectivos
círculos de convivência, e prejuízo material que, embora gigantesco,
pode ser recuperado com trabalho redobrado; a cidade pode ser
higienizada e recuperar a salubridade, devolvendo a segurança para
que a população ali continue a viver.
Cá, também há perdas de
vidas humanas, com a diferença que camufladas por causas que mais
seriam efeitos da corrupção inerente às ações de muitos políticos; e
da recuperação dos prejuízos na vida nacional não se vislumbra
possibilidade, antes que várias gerações se sucedam, porque para nós
a maior perda é de ordem moral. Duvida-se que haja remédio que cure,
sem dor, o mal de que padece a nação, quando se percebem sutis
movimentos com claras intenções de dar proteção à manada envolvida,
exibindo ao público cínico espetáculo mediante sacrifício de alguns
"bois-de-piranha". E enquanto sujeiras continuam a surgir, os não
envolvidos ou não alcançados pelas CPIs tratam de se arrumar em
outros partidos, porque eleições vêm aí. Não há no sistema político
brasileiro o que seria "vestir a camisa" do partido e "brigar" nele,
por ele e por seu intermédio, em defesa de idéias de interesse
nacional. Além do mais, a chamada essência do partido está na
vontade da cúpula, ou dos seus donos, uma mistura de interesses
pessoais e corporativismo interpartidário. Por isso, às vésperas de
cada eleição e especialmente por ocasião de crises como esta,
verifica-se revoada de políticos na troca de partido, sem qualquer
escrúpulo e consideração com relação ao eleitor que o escolheu
dentro de determinada agremiação política.
Os salvos do "incêndio"
nutrem a esperança de concorrer e retornar ao poder, por meio das
urnas às quais é obrigatório o comparecimento do eleitorado a cada
dois anos. Entretanto, a reação dos eleitores poderá surpreender os
políticos, acostumados com a complacência daqueles, apesar de
reincidentes nos mesmos erros a cada mandato exercido. Desta vez
políticos inescrupulosos se superaram na bandalheira e atingiram, em
cheio, o brio nacional. Falta de alerta por parte da imprensa, que
sempre mostrou o caminho equivocado de parte da classe política, não
é. A reação às críticas é de desdém, quando não contra-ataques e
tentativa de transferência de culpa.
Nas próximas eleições,
considerada a reação do povo indignado com a pilantragem, instalada
no governo pelo partido que sempre se arvorou, junto ao povo, como
portador da seriedade definitiva a ser empregada na administração
pública, o resultado poderá ser decepcionante. Forte tendência ao
voto nulo é o que se depreende de conversas, mantidas em torno da
corrupção e conseqüente crise. A descrença é geral. Poucos
acreditam, por exemplo, que os processos relativos à corrupção
consigam alcançar e punir os culpados, mesmo porque leis não são
criadas sem brechas, por onde possam escapar seus autores quando
pegos com a mão na cumbuca. Ninguém produz laço para se prender!