Sons da saudade e do ... desespero!
No princípio, acordava-se com o nheeeemmmm
emitido pelos carros-de-boi - a caminho para a roça - misturado à
algazarra dos bem-te-vis, sanhaços, sabiás, joões-de-barro,
pintassilgos, canarinhos e outros seres emplumados, que anunciavam o
nascer do sol. Daí em diante, e durante todo o dia, mais sons se
misturavam aos primeiros, sem que qualquer deles deixasse de ser
ouvido por força da preponderância de algum. Bastava parar um pouco
e sentir, separadamente, o latido do cão ao longe, o canto dos galos
em diálogo ecoante por toda a redondeza, o grito da criança na
realização de alguma peraltice. De vez em quando, uma galinha se
punha a cacarejar doidamente como se o ovo diário, e próprio de sua
natureza, fosse algo incomum, do mesmo que políticos anunciam e se
gabam de realizações, que não passam de sua obrigação.
Contudo, o "escândalo" provocado pela penosa
tinha validade para o dono, que não perdia a omelete, especialmente
no caso em que os ovos eram como se de ouro fossem; moeda de troca
por gêneros de primeira necessidade no armazém. Ao transitar pelas
ruas era comum ouvirem-se, em determinadas horas do dia, batidas
abafadas e cadenciadas. O tum... tum... tum... era sinal de que café
colhido no quintal, secado no terreiro, pilado e torrado, tornava-se
finalmente pó, último estágio antes de se converter na bebida
matinal. Ao cair da tarde e em diversos pontos, vozes infantis
carregavam o ar com canções de roda. Homens assoviavam na rua e
mulheres cantavam em casa! Sim, cantavam repertório bastante
diversificado, desde modinhas antigas, até sucessos mais recentes,
ouvido aqui e ali nos poucos rádios então existentes. Algumas ainda
arremedavam trechos de ópera. Mas o forte mesmo eram hinos e
cânticos religiosos. E, ao lembrar religião, registre-se o forte
apelo sonoro do sino, que hoje mal se ouve aos domingos ou quando
alguém cruza a última fronteira. Em toques de verdadeiras mensagens
informativas sobre o quotidiano da comunidade, muito diziam além do
simples som metálico. Soava para a missa diária das seis, voltava ao
meio-dia em batidas isoladas e compassadas, repetidas às seis da
tarde na hora do Angelus, transição entre o dia e a noite.
Soava ainda nos momentos aflitivos, tragédias naturais como
enchentes, por exemplo, sem esquecer eventos festivos. Música
instrumental ao vivo também se ouvia, em manifestações individuais e
de grupos, em casas de instrumentistas e em pontos de encontro
destes.
Alguns dos aqui referidos desapareceram dos
nossos ouvidos, enquanto outros persistem, porém abafados por roncos
de motores e sons de natureza eletrônica emitidos sem qualquer
controle. O ouvido humano, estruturado para suportar volume de som
até o máximo produzido pela natureza, já perde capacidade na
percepção de variações modulares, no campo da música, devido aos
altos decibéis a que está exposto. E estará seriamente comprometido
se a lei não se impuser para o bem da saúde pública e da harmonia
social, a começar pela proibição, em veículos, de qualquer aparelho
sonoro que ultrapasse a potência do rádio ou pequeno "CD-player",
passando pela fiscalização sistemática de casas noturnas em zonas
residenciais e controle rigoroso dos decibéis produzidos em
quaisquer eventos.
Antes do automóvel e da eletrônica, destoava da
vida urbana a figura do caipira rural, simplório e folclórico, alvo
de chacotas entre "urbanóides". Ele desapareceu, levando muito dos
sons mais agradáveis, o que possibilitou abertura de espaço para o
"jeca do asfalto", montado em quatro rodas, e sua "tralha elétrica",
predadores da cultura e uma das pragas urbanas consentidas pela lei.