Grandalhão e espalhafatoso
no linguajar característico dos nordestinos, às vezes de chapéu roto
a lhe cobrir cabeleira rala e já esbranquiçada, era o homem que
chegou a Cachoeira do Campo, não se sabendo, entretanto, como
descobriu a então pobre e acanhada localidade que, longe de ser
destino de viagem, sempre foi passagem para se chegar a Ouro Preto.
Recém-inaugurada, a que
hoje se denomina "dos Inconfidentes" não era "rodovia", porém
"estrada de rodagem" sem nome, poeirenta ao sol e atoleiro oficial
quando se abriam as comportas do céu, por vários dias seguidos. Do
extenso lamaçal, em que se transformava a estrada, se valiam jornais
contrários ao governo de Juscelino Kubitschek - que a construiu em
sua maior parte - para atacá-lo, qualificando a obra de atoleiro: do
dinheiro público, dos veículos que por ela transitavam e da
paciência dos motoristas. Eram estas as condições da ligação viária
da região com o resto do mundo, quando aqui aportou aquele homem
engraçado que a todos chamava "cabra da peste". "Cabra da peste" pra
cá, "cabra da peste" prá lá, no fim, "Cabra da Peste" virou ele,
cujo nome nem me lembro, tão entranhado lhe ficou o apelido.
No princípio, sem eira nem
beira ou com uma mão adiante e outra atrás, se ajeitava com prato de
comida aqui, outro ali, um pão á porta dos botequins, roupa de
segunda mão, não fácil porque seu tamanho destoava um tanto da
maioria. Levava vantagem por saber lidar com pessoas: educado com
quem o respeitava e algo irônico, combativo e contundente em relação
aos que, devido à sua condição social, tentavam se sobrepor com
preconceito e depreciação. "Cabra da Peste" não se enturmou, mas se
adaptou ao jeito local e, à beira da estrada se arranchou antes de
se estabelecer, tão logo lhe foi possível "economizar" alguns
caraminguás garimpados junto à boa vontade pública. A pequena
poupança ele investiu na aquisição de um saco de laranjas e, sentado
em caixote de madeira, montou seu ponto de venda. Do resultado
daquele investimento inicial se sustentou por alguns dias e mais
laranjas comprou e vendeu. Em pouco tempo, armou barraca de bambu,
tornou-se pequeno comerciante, suficientemente capaz de se manter.
Não havia muita
regulamentação sobre empreendimentos e, assim, como o folclórico
"Cabra da Peste", outros montavam pequenos negócios, oficinas, de
onde tiravam seu sustento e ainda mantinham empregados ou
aprendizes, futuros empreendedores do mesmo ramo. Bolsas, naquela
época, eram as de estudos (ginasial e colegial), que não eram
distribuídas pelo governo a pobres, simplesmente em razão dessa
condição social, pois eram selecionados entre os melhores por meio
de provas de conhecimentos com base no currículo escolar. Criança
sem amparo familiar tinha o do Estado em estabelecimentos de ensino,
onde o trabalho fazia parte da educação. Invasor de propriedade
alheia era criminoso, preso e julgado como tal; indivíduo que
subtraia algo, por "descuido" ou com uso da força era conhecido como
ladrão e a mesma pecha lhe era atribuída pela imprensa. Autor era
tão somente o praticante de boa ação, o produtor de arte, o escritor
ou realizador de qualquer trabalho intelectual. Presidiários
obedeciam às regras e à direção dos presídios, trabalhavam, e, parte
do que produziam era ponto de partida para a ressocialização ao fim
do cumprimento de suas penas. Malandragem não tinha moleza e
perambulação constante nas ruas era comportamento suspeito, passível
de censura pela polícia que, então, era respeitada até por
marginais.
Novos tempos, inversão de
valores e, ao invés do estímulo ao empreendimento e à criatividade,
o governo distribui benesses, sem antes separar a súcia da
verdadeira carência. Como se não bastasse o ridículo do celular,
usado sem que nem pra que, transformado em brinquedo imbecil,
cogita-se, da parte do governo, de distribuí-lo à mão cheia aos que
recebem o "Bolsa Família", programa sob o qual se esconde muita
malandragem disfarçada de exclusão social. É mais miçanga com que se
compram votos entre os não dotados de consciência política. Enquanto
isso, os aposentados pagam com menos qualidade de vida, surrupiados
pela política previdenciária.