PONTO DE VISTA DO BATISTA
"Tamo na mão de calango"
Do céu, por meio de
tragédia a vitimar pessoas no cumprimento de seu trabalho, vem a
tentação. Alguns milhões de reais, junto aos destroços da aeronave e
corpos de seus ocupantes, ficam expostos no meio do campo,
imediatamente evacuado dos seus bois e vacas pelo barulho daquela
coisa que sempre passa acima e bem distante dos seus chifres. O
cenário não pode ser mais propício para a ilusão, porque, a espécie
humana ali presente se situa na faixa desvalida, alijada dos meios
de produção e destituída do que lhes poderia proporcionar a
educação, ainda que básica.
Mal refeitos do susto,
acercam-se de destroços e despojos, moradores mais próximos, movidos
pela surpresa e curiosidade. Outro impacto sofrem ao terem diante
dos olhos dinheiro em quantidade nunca vista em suas vidas. Tal como
entre irracionais em torno da vítima abatida lançam-se sobre bolsas
e pacotes do mais perfeito bem econômico, que o ser humano já
concebeu. Na estrada que corta o campo, não muito longe dali, param
veículos, e deles descem cidadãos, também esbaforidos com o acidente
em si, que deixa de ter prioridade à vista do dinheiro ao alcance
das mãos; pois, constatada a morte de quem cumpria missão de
resguardá-lo da cobiça alheia, o caminho está livre. Misturam-se
mãos calejadas e crestadas pelo sol com outras nem tanto, só
faltando as com punho de renda porque estas, acostumadas aos
gabinetes climatizados, não saem por aí a se misturar com
semelhantes do mais comum dos mortais. E que atire a primeira pedra
contra aquela turba quem não se sentir tentado a fazer o mesmo
diante da mesma oportunidade.
Caísse o avião em
condomínio de luxo, essas verdadeiras cidades fechadas, a pilhagem
seria a mesma, acrescida de maiores cuidados entre autores, para
evitar a devolução. Não teria o mesmo comportamento, entretanto, a
força policial que, dificilmente teria prendido alguém, antes que
advogados entrassem no mérito para defender proprietários e
residentes.
Na região do acidente,
segundo noticiário, policiais invadiram casas, ameaçaram, prenderam
e fizeram sofrer famílias simples e trabalhadoras, na tentativa de
recuperar o dinheiro saqueado. Melhor trabalho teria sido realizado,
se assistentes sociais, acompanhados da polícia, tivessem levado
compreensão e orientação em lugar de intimidação e repressão;
repressão não feita contra saqueadores, não residentes, que passavam
pelo local de carro, pois não se viu o mesmo empenho para
localizá-los, prendê-los e tomar-lhes de volta o produto do saque. O
poder do estado se faz cruel contra os pobres e mais pobres,
aliviando o peso de sua mão à medida que sobem na escala social
infratores e criminosos.
E não é só o pobre
infrator o preferido nas ações repressivas, porque nas relações de
trabalho e negócios com o poder público, é no lombo do pequeno
fornecedor e prestador de serviços que cai o prejuízo decorrente da
incompetência administrativa e da corrupção. Na outra ponta da
questão, agentes políticos não deixam de receber polpudos salários e
pagam regiamente quem com eles têm negócios, em patamares mais altos
da seara pública. Para não pagar aos pequenos vale qualquer coisa,
desde o "empurrar com a barriga", passar para frente os mais
poderosos, até assinatura de compromissos para ampliação de prazos,
a revogar posteriormente mediante evocação de leis especialmente
concebidas para esses casos.
Vigente no país, esta é a
democracia na qual o cidadão sem poder só tem "direito" de votar e
de pagar impostos. Tamo na mão de calango!