PONTO DE VISTA DO BATISTA

                                    Teimosia e palhaçada                                    

Por cinco meses, torrou-se a paciência do povo noutro escândalo, fruto da corrupção endêmica a grassar nas mais altas esferas político-administrativas deste país. A renitência do presidente do Senado em deixar o cargo, diante das graves acusações, é bem uma mostra da cultura individualista em relação a posições de mando na vida pública brasileira, ao contrário de outros países, nos quais, o político e o administrador público têm consciência da sua relação com o cargo e, ao primeiro sinal de inquietação da sociedade, o suspeito de comportamento anti-ético e/ou falcatruas se afasta, para que tudo se apure e se esclareça.

O noticiário, com base em investigação, mostrou a todo o país como o senador havia transformado caso de alcova em negociata, arrancando de empresa grande soma para o sustento e educação do fruto de suas aventuras fora do casamento. Imagine-se o retorno desse “compromisso” empresarial - algo em torno de doze mil reais mensais - porque nada é de graça, a não ser que papai-noel realmente exista. Na tentativa de se defender, a corda mais se apertou no pescoço do senador, pois as provas da renda alegada se revelaram inconsistentes, de acordo com perícia documental realizada pela Polícia Federal. Sobravam bois no papel e faltavam nos pastos da fazenda do presidente do senado; e os que ele vendera deveriam ter chifres de ouro, tal o preço apurado nas vendas feitas. O negócio, conforme apresentado por ele, seria o mais lucrativo do mundo e faria inveja ao mais destacado pecuarista. O senador seria o “rei do gado”, sem ter o próprio! Merece prêmio de melhor ilusionista e de destaque por sua contribuição ao enriquecimento do anedotário nacional!

Não bastasse essa acusação, outras surgiram ao longo das investigações e das discussões. Fazendeiro bem sucedido, o senador reforçou laços familiares, dando uma mãozinha ao mano, dono de fábrica de refrigerantes, em negócio com grande empresa paulista  no ramo de cerveja. De acordo com as acusações formuladas, o senador teria aliviado a barra da empresa cervejeira junto à Receita Federal e ao INSS, que lhe cobravam pesadas dívidas. Dessa manobra, própria dos deuses do Olimpo, a fábrica de refrigerantes pôde mudar de mãos por preço bem acima do mercado; negócio da China, pelos padrões comerciais! Mas, para quem fazia brotar bois como capim no pasto e vendê-lo, a peso de ouro, a compradores  fora do mercado, até que a maracutáia foi bem modesta. Em outra denúncia, o senador era sócio oculto de duas emissoras de rádio.Como a Constituição proíbe aos parlamentares contrato de concessão de serviço público, o então presidente do Senado teria se envolvido em fraude e se valido de “laranjas” para a compra das duas emissoras. Depois dessas e outras aprontadas pelo senador, dois colegas seus o acusam de os espionar com o propósito de coletar dados que lhe sirvam de base para a prática de chantagem. Ingênuos criam que só o primeiro caso seria suficiente para fazê-lo perder o mandato, esquecendo-se do corporativismo, que sempre funcionou e se confirmou, em seu caso, quando levado ao plenário. “Eu sou inocente e todos precisam acreditar na 'minha verdade'”, declarou ele a jornalistas às vésperas da votação.

E seus colegas preferiram acreditar na verdade particularizada, por ele próprio destacada, em contraposição à universalidade daquele princípio. Liberado para continuar no cargo, continuou sob pressão até que cedeu, em parte, solicitando afastamento por quarenta e cinco dias; bom período de “férias”, suficiente para estudar e por em prática alguma estratégia que lhe salvem o mandato e os direitos políticos.

E como fica o Senado Federal? Emporcalhado, sem credibilidade, peso morto na estrutura institucional do país! Longe de restaurar-lhe o mínimo de credibilidade, o pretendido abraço simbólico dos senhores senadores ao prédio do Senado constitui usurpação, pois o direito de indignação e de protesto contra o estado de coisas naquela Casa parlamentar cabe ao povo, principal vítima da corrupção.

Em lugar do protesto contra si próprios – que melhor ficaria diante do espelho - pois assim se configura o ato, os senadores deveriam por em prática medidas moralizadoras que cortassem, na própria carne, o poder que excede o estabelecido pela Constituição.

O resto é P-A-L-H-A-Ç-A-D-A!!!

nbatista@uai.com.br

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