Depois da
tempestade...
Chuvas torrenciais em
alguns pontos ou mais fracas, porém persistentes, em outros, atraíram
o foco das atenções nesta região do país durante os primeiros dias
do ano. Em alternância com períodos de equilíbrio e relativa pouca
chuva, o fenômeno da escâncara das torneiras do céu acontece
ciclicamente a cada onze ou doze anos, e, se previdentes fossem os
homens públicos, tragédias poderiam ser evitadas, mas isso não ocorre
com freqüência. Mesmo sob alerta de estudiosos, olhos e ouvidos se
fecham, medidas preventivas deixam de ser tomadas, recursos se desviam
para suntuosidades. A fartura de chuvas sucede a um período de grave
escassez, geradora de uma crise energética que não teria sido vivida
pelo país, se o governo tivesse ouvido os especialistas da área. As
seqüelas imediatas da imprevidência não foram maiores porque a
população atendeu prontamente ao grito de socorro dos governantes,
sacrificou a comodidade em casa, aceitou a escuridão nas ruas e chegou
ao extremo de tomar "banho de caneco". O povo terminou de
pagar pela omissão oficial? Não, e tão cedo deixará, porque as
contas de energia subiram assustadoramente, embora a poupança dos KW
continue, e outros aumentos já estão programados. Pagou ao deixar de
consumir e agora paga e pagará pela energia que não se produziu.
Das últimas chuvas,
o saldo de destruição, mortos e desabrigados, repetiu o quadro de
miséria e abandono, visto de tempos em tempos e momentaneamente
socorrido pela população. As chuvas pararam. Veio a bonança, depois
da tempestade! Mas, isso no que se refere à natureza, porque no campo
humano e para os mais prejudicados é agora que se inicia a fase pior de
toda a tragédia. Quando a casa vem abaixo ou as águas levam tudo que a
família possui, sofre-se o impacto emocional no confronto com a dura
realidade. O indivíduo se sente impotente diante da perda e se
desorienta. Vem a solidariedade da população que acolhe, supre as
necessidades básicas e dá consolo. Da esfera oficial podem vir
promessas de solução, mas isso cai no vazio tão logo a normalidade
vem para a sociedade não diretamente atingida pela dor da perda em
vidas humanas e/ou, prejuízos materiais. Os desvalidos de tudo
continuam na dependência do improviso e do provisório. Da população,
não mais a espontaneidade da doação. Agora há que pedir. Enquanto
isso, os que perderam em razão da incúria na administração pública
e têm consciência de seus direitos iniciam um longo trajeto de idas e
vindas, para satisfazer a burocracia, esperar a boa vontade de
funcionários, ouvir arrazoados e insinuações treteiras de políticos,
até chegar à lerdeza da Justiça.
Neste domingo, dois
de fevereiro, completam-se vinte e quatro anos do tombamento do muro que
sustentava a Rua Augusto Corrêa de Magalhães, bairro da Água Limpa,
em Ouro Preto. No primeiro momento solidariedade de todos os lados. Na
hora de reconhecer a culpa pela construção do muro fora das
especificações técnicas, a administração municipal fez de tudo,
até o desaparecimento de um processo administrativo, para impedir que
as vítimas fossem indenizadas. Esgotados os recursos e a paciência na
discussão "amigável" com a prefeitura, o caso foi à
Justiça. Em primeira instância, simplesmente hilariante a audiência
de "instrução e julgamento": às testemunhas arroladas o
juiz só fez perguntas relativas às chuvas. Nem de longe se referiu às
características técnicas do muro, ou, se as casas destruídas existiam
antes dele. Deduzia-se perfeitamente qual seria a sentença, cujo teor
só faltou atribuir às vítimas a culpa pelas chuvas. O caso foi
revertido em favor das vítimas porque estas foram persistentes na
cobrança de seus direitos e recorreram ao Tribunal de Justiça.
Temo portanto que
tormenta maior deverão enfrentar muitos atingidos pelas últimas
chuvas: a tormenta provocada pelo coração dos homens!