PONTO DE VISTA DO BATISTA

Depois da tempestade, o abandono

O final de novembro foi trágico para a população do Vale do Itajaí, Santa Catarina, mais uma vez atingida pela inclemência das chuvas, em alto volume concentrado no tempo e espaço, como raramente ocorre, mesmo nos anos mais chuvosos, de acordo com opinião de especialistas. Mais de uma centena de mortos, quase oitenta mil desalojados e desabrigados, alguns bilhões de prejuízos que levarão o mínimo de dois anos para serem repostos.

Por um capricho da natureza, mal entendido e mal explicado até agora, tais concentrações de chuvas podem ocorrer em determinados pontos do globo, mas as chuvas em si não causam mortes, ficando isso por conta de desajustes do comportamento humano em relação às leis naturais.

De um lado, por falta de opção ou por negligência, o indivíduo constrói em área de risco, à beira de cursos d’água ou nas encostas de morros, sem encontrar qualquer oposição da administração pública, quando não por incentivo de políticos inescrupulosos. As águas sobem e o espaço que seria seu, em ocasiões excepcionais, está ocupado. Terra encharcada desce do morro e encontra obstáculos no seu trajeto. O mau costume de se desfazer do lixo, lançando-o em locais impróprios, se alia à mania do asfalto em lugar do calçamento feito de pedras. As vias de escoamento ficam entupidas por lixo e as águas se acumulam na superfície destituída do dreno natural, que seria formado entre as pedras do calçamento, se este não fosse eliminado pelo asfalto.

No Vale do Itajaí, em outras ocasiões, atingido por fenômeno semelhante, a engenharia apresentou soluções, que minimizariam os efeitos das cheias dos rios. Entretanto, elas não saíram papel porque faltou vontade política na opção pela ciência e técnica, que estão aí prontas para serem aplicadas. Não são executadas porque homens públicos empurram soluções com a barriga, muitas vezes considerando as obras como desprovidas do charme político. Com as chuvas dá para conviver sem riscos, pois, o que causa transtornos são as conseqüências de ações humanas, incompatíveis com as leis naturais!

A tragédia catarinense mobilizou todo o país em socorro das vítimas que, de repente, perderam parentes e amigos, passam por carência alimentar, ou perderam até a residência. Em termos materiais, o que mais abate o ser humano nessas ocasiões é a sensação de perda do domicílio, o local sagrado e indevassável de sua vida familiar, ainda que temporariamente. É parte de sua identidade cidadã arrebatada de forma violenta e cruel. Nos abrigos improvisados, os flagelados recebem atenção e assistência dos órgãos especializados, profissionais da área médica e voluntários da sociedade civil, em ações convergentes visando à redução do sofrimento provocado pelas perdas, enquanto carinho chega dos mais distantes sob a forma de doações. É a realidade dura dos que passam por essa provação, repetida todos os anos em vários pontos do país.

Mas o pior ainda virá, não para todos, mas para alguns. Gradativamente, a vida das populações atingidas voltará à normalidade. Uns retornarão às mesmas casas, outros terão de assumir novos endereços como domicílio e a vida continuará sem maiores atropelos. Os dias de aflição se somarão ao passado, robustecendo a história de cada um. Entretanto, haverá os que, depois de toda a atenção em si concentrada, sofrerão a pior parte da tragédia: o descaso. Chegará o dia em que a grande maioria terá a tragédia apenas como lembrança, mas alguns não terão tido solução para sua situação. A solidariedade, antes chegada de todo o país, estará restrita ao pequeno círculo de abandonados, que enfrentarão ainda a frieza dos que empurram papéis na gaveta ou lhes dão fim na cesta de lixo. Para esses, enfrentar a frieza e a dureza do coração humano - o mesmo que demonstra solidariedade na aflição em horas de pico - será pior que enfrentar a fúria das forças naturais.

nbatista@uai.com.br

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