PONTO DE VISTA DO BATISTA

Tempo e expectativas

Vimos o calendário virar mais uma vez, e, cá estamos novamente com os mesmos propósitos de há quatorze anos, quando abrimos, ou melhor, ocupamos este espaço do jornal para um contato semanal com o público que, desde então e democraticamente, nos tolera as rabugices. Há quem nos critique por só escrever azedume, apontar erros, defeitos e o lado negativo de tudo, esquecendo a virtude e o lado poético da vida. Isso, em parte, é verdade mas, em contrapartida, há quem só escreve lirismo. Cada qual exerce sua função, assim como o parafuso na máquina: um a sustentar a engrenagem, outro a fixar o envoltório protetor. Ambos são necessários.

Mas, voltando à contagem inexorável do tempo, salta-nos à consideração a sucessão de fatos, alguns sob angustiantes expectativas e outros a nos colher de surpresa. O ano 2000 - que encerrou o século XX e o segundo milênio - por exemplo, foi aguardado com presságios aterradores, tendo como base superstições de cunho religioso, sem esquecer que expoentes da tecnologia fizeram das suas, prenunciando o caos que seria instalado no ir e vir, assim como no ter e fazer do homem que entregou a gerência de sua vida à máquina. Acontece que, para frustração dos arautos de desgraças e felicidade nossa, o mundo não acabou, e o "bug" do milênio não passou de um trote em escala globalizada. Superada a barreira dos zeros no final do século e do milênio, geridos pelo número dois, o primeiro ano da contagem seguinte que, de acordo outros presságios seria de paz e harmonia entre os povos, trouxe a horrível surpresa do atentado do 11 – vejam a semelhança entre as duas torres do WTC e do dia em que tombaram – com todas suas implicações, que nenhum vidente anunciou.

Todas aquelas expectativas em torno de 2000 e a terrível surpresa de 2001 ficaram para trás e já fazem parte da História a ser pesquisada no futuro. Muito rápido, o futuro se torna passado em nossa consciência. Nos anos setenta, ao inaugurar grandes obras ou serviços, políticos no governo tinham o ano 2000 como referência para a garantia do atendimento ao público. Tranqüilizavam a população, dizendo que aquele benefício estaria garantido até o ano 2000 como se mui longínquo ele estivesse no tempo. Como num piscar de olhos, quem era adulto na época nem viu o tempo escoar. O tão aguardado e temido ano 2000 já era! Há três anos!

Nossa percepção divide o tempo em passado presente e futuro. Mas, na verdade e de acordo com a mesma percepção, tudo já foi ou será. Nada de fato é, pois o presente não passa de um fio tênue que não conseguimos perceber além de um átimo de tempo, infinitamente menor que um rápido piscar de olhos. Penso digitar este O, e, no momento em que ele surge na tela, esse fato já é passado! Logo no primeiro parágrafo mencionei os quatorze anos transcorridos desde abertura desta coluna em janeiro de 1989. Entretanto, quatorze na mente objetiva me parecem muito diante da consciência que hoje tenho desse tempo. O período não me parece superior ao existente entre os quinze e os vinte e cinco anos, por exemplo. Aqueles dez anos diante dos últimos quatorze têm o peso de cem, aparentemente recheados de mais acontecimentos. Dos dez aos dezoito anos, então, a sensação de tempo equivale a duas vezes o período descrito anteriormente. Por fim, na primeira infância, a distância entre um natal e outro equivalia a quase eternidade.

Fincamos os pés em 2003 sob a carga de muitas expectativas e, para uma grande maioria, a ansiedade em torno de benefícios prometidos em palanque eleitoral tornará o tempo mais lento. Um grande futuro em apenas quatro anos é algo que supera até sonhos infantis. Oxalá não se frustrem todos ao fim de tudo!

nbatista@uai.com.br

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