|
PONTO DE VISTA DO BATISTA
Tempo de oportunidade
Algo novo pode estar a se desenhar no horizonte da interação dos
povos, tão diferente como o acalentado pela imaginação popular a
cada virada de ano, ou de forma mais intensa, recentemente, na
transição do século e do milênio. Na verdade, o calendário cósmico
nada tem a ver com o convencionado, ou convencionados, pois, ainda
que seja única, a humanidade se divide até na cronologia do tempo. E
assim parece que, pela sucessão dos acontecimentos, transformações
estão a caminho, dando início a novas perspectivas na busca do
melhor e na realização do bem comum da espécie humana.
A grave conturbação na área financeira internacional só é uma
situação de perdas e de derrota, se o mundo assim quiser, mas,
felizmente, vozes ainda isoladas têm insistido na possibilidade de o
momento ser grande oportunidade para salto evolutivo.
E nesse aspecto, voltemo-nos para o oriente, de onde vem a luz! Da
China recebemos o ensinamento configurado em seu sistema de escrita,
no qual o ideograma que representa a idéia “crise” é formado pela
união de dois símbolos que representam “perigo” e “oportunidade”. De
acordo, portanto com a crítica chinesa, depende de como se encara o
momento tido como desfavorável, pois o próprio instinto da
sobrevivência abre porta extra diante das dificuldades. E a
sabedoria popular diz que “a necessidade faz o sapo pular”.
Em meio a todo esse furacão financeiro e incertezas quanto ao
futuro, a ascensão de nova liderança política à posição de
governante da mais destacada entre as nações - coincidentemente a
mesma que gerou a crise – reveste-se de singular importância em
vários aspectos, a começar pela linha de pensamento, consonante com
o entendimento e voltado para a valorização humana, enriquecido pelo
fato de, entre os supremos mandatários daquele país, ser ele o
primeiro da etnia até poucos anos segregada legalmente. Sua ascensão
à presidência era o que faltava para que se consolidasse a igualdade
racial no modo de vida norteamericano, embora, isoladamente, ainda
existam resistências sob a capa do preconceito e discriminação,
sequelas do longo período de segregação.
Ambos os fatores alimentam esperanças, mas, os resultados do novo
governo, mesmo com avanços, podem ficar aquém do imaginado pela onda
de otimismo a varrer o mundo, elevando o novo presidente à quase
condição de super-herói ou salvador da pátria. Contudo, o próprio
quadro econômico-financeiro deve determinar mudanças, que incluem o
amoldamento da política internacional a novas diretrizes, entre as
quais a prática de mais respeito entre os povos, independente da
posição de poder de cada um. Assim como o fruto atinge o ponto de
maturação, quando então deve ser colhido para que não se perca, o
mundo político e dos negócios atingiu estágio que requer adoção de
novo modelo, para que a humanidade prossiga sem mais sobressaltos no
curso da evolução. A própria festa da posse deu o tom do que poderá
ser a música política daqui para frente, sabendo-se, entretanto, que
instrumentos não afinados com o conjunto poderão alterar o “sabor”
do concerto.
Percebe-se esse desafino em qualquer situação, não se salvando nem
zelosos profissionais da comunicação, a exemplo de duas
comentaristas durante a festa da posse que, ao elogiar o equilíbrio
político-emocional do presidente como descendente de etnia por tanto
tempo segregada pela sociedade norte-americana, disseram não ser ele
praticante do “racismo ao contrário”.
Ora, se o conceito de contrário é o “oposto”, o “avesso”, o
“inverso” do pressupostamente correto, deduz-se, falsamente, que
existe racismo correto. Ó cara pálida! Racismo é racismo com a mesma
carga negativa em qualquer direção.
nbatista@uai.com.br
TEXTOS
ANTERIOR |