Tomates azuis?
Manhã do primeiro dia do
horário de verão em vigor - essa intervenção na vida das pessoas
imposta com o controverso argumento de que proporciona economia de
energia - abro o jornal e sou assaltado pela notícia de outra, desta
vez no reino dos hortifrutigranjeiros. Com a sensação de ser
violentado em meus direitos de aproveitar as horas ensolaradas de
acordo com o meu gosto e interesses pessoais, a cada verão, tomo
conhecimento que já alteram a cor do tomate, até aqui vermelhinho,
por dentro e por fora, desde que o mundo é mundo.
A cada manhã, dentro ou
fora do famigerado horário de verão, sentimo-nos cada vez mais
estranhos, num mundo que toma formas divergentes das que se mostram
como obras da criação. Sabe-se, por exemplo, que intervenções
genéticas se fazem, nos reinos vegetal e animal, em muito do
destinado à mesa, sem que o grande público delas se aperceba de
forma imediata, seja porque não resultam em impacto aos sentidos, ou
porque alcançam círculos menores de destinatários. Na maioria das
vezes, as alterações têm motivos econômicos ligados aos interesses
produtivos. A notícia não esclarece se o tomate é azul só depois de
maduro, ou se tem a nova cor também na fase "verde". Deixa também na
dúvida quanto ao seu interior. Fico a imaginar rodelas de tomates
azuis no prato. Deve ser bem esquisito! Com exceção do repolho roxo,
não me lembro de verdura ou legume da mesma cor ou parecida. Estamos
bastante acostumados com o verde, o amarelo e o vermelho no prato,
mas azul, não! Não sendo por simples manipulação dos códigos da
vida, como deixa transparecer a notícia, quando informa ser a cura
de doenças e preservação da saúde o destino final do novo tomate, a
novidade é bem vinda. Tudo azul na saúde com o novo tomate!
Quando vi chamada sobre a
matéria no jornal, lembrei-me de notícia semelhante, há cerca de
cinco anos, que comentei neste espaço. No Japão, alguém preocupado
com melhor aproveitamento de espaço na armazenagem e no transporte
havia "criado" a melancia quadrada ou, melhor dizendo, cúbica. Se a
iniciativa vingou, felizmente aqui não chegou!
É impressionante como, o
espírito interventor do homem tende a alterar o estabelecido no
esquema universal. Essa tendência humana chega a ser contemplada com
anedotas. Uma delas focaliza um homem, no campo, a observar animais
e fazer comparações entre uns e outros. Vê uma vaca a comer resto de
capim entre a vegetação inservível como alimento e, ao mesmo tempo,
nota como um tico-tico saltita a catar alimento aqui e ali, voando
em seguida para longe. E ele imagina que, se tivesse poder
inverteria as situações entre o tico-tico e vaca. Por necessitar de
mais quantidade de alimento, nem sempre encontrado num só local, a
vaca é que deveria voar, enquanto o tico-tico poderia, muito bem,
catar seu alimento em espaço restrito. Nesse exato momento, outra
ave do mesmo porte da primeira, que voa no local, aciona seu sistema
de descarga intestinal, indo a matéria expelida cair no nariz do
"reformador" do mundo. Ele limpa a sujidade com a ponta do lenço,
perguntando mentalmente: e se fosse vaca?
Voltando à questão
inicial, o que virá depois de tomates azuis? Chuchu vermelho,
talvez! Quem sabe, couve rosa. Mas um pensamento me pôs em
sobressalto, ao olhar para o quintal e me dar conta de que estamos
em tempo de jabuticaba. E se algum espírito de porco resolver
alterar a cor das doces "pretinhas"? Que ninguém se atreva a criar
jabuticaba amarela!